Escultura de Claudia Fontes no Pavilhão da Argentina.. Todas as imagens: Lucio Salvatore

Viva Arte Viva

A 57ª Bienal de Arte de Veneza intitulada “Viva Arte Viva” inaugurou no início do mês de maio, curada por Christine Macel.

Christine é curadora-chefe do Centre George Pompidou, em Paris, e volta a Veneza este ano depois de assinar a curadoria do Pavilhão da Bélgica, em 2007, e da França, em 2013. Segundo Serge Lasvignes, presidente do Centre Pompidou, Christine defende o ato de criar sem compromissos, não se assusta com coisa alguma e se nutre de tudo, procura colocar a palavra e os pensamentos dos artistas no centro de seus projetos expositivos, sem submetê-los a qualquer tipo de restrição ou obrigação.

“A arte não muda o mundo, mas é o lugar onde é possível reinventá-lo”, declara Christine.

Para “Viva Arte Viva”, ela construiu um percurso em direção ao descobrimento do universo dos artistas e de sua vitalidade, que os permite reinventar o mundo.

Essa Bienal conta com 120 artistas convidados dos quais 103 expõem pela primeira vez na Bienal. Alguns são novas descobertas e muitos deles são redescobertas. Ao mesmo tempo que se concentra em jovens artistas, redescobre aqueles que morreram muito cedo ou aqueles que ainda são amplamente desconhecidos, apesar da importância do seu trabalho. A coragem de fazer essas escolhas é outra demonstração concreta da confiança no mundo da arte por parte da curadora e o encontro direto com os artistas assume um papel estratégico, com um programa sem precedentes em dimensão e coragem.

Ao todo são também 86 participações nacionais dando vida ao pluralismo de vozes típico da Bienal, além de 23 eventos colaterais.

Em um mundo cheio de conflitos e choques, a arte é testemunha da parte mais preciosa do que nos torna humanos. A arte é o terreno ideal para exercitar a reflexão, expressão individual, liberdade e para pensar as questões fundamentais.

Este ano, a Bienal é dedicada à celebração e à gratidão pela existência da arte e dos artistas, cujos mundos expandem nossas perspectivas e o espaço da nossa existência.

É uma exposição inspirada pelo humanismo. Nas palavras da própria curadora, “’Viva Arte Viva’ é uma afirmação, é um clamor apaixonado pela arte e pelo papel que o artista tem no mundo. “Viva Arte Viva” é uma Bienal desenhada com os artistas, pelos artistas e para os artistas.”

Em vez de abordar um único tema, “Viva Arte Viva” oferece uma rota que dá forma aos trabalhos dos artistas e um contexto que favorece o acesso e a compreensão, gerando conexões ressonâncias e pensamentos. A jornada se desdobra no curso de nove capítulos, ou famílias de artistas, começando com duas regiões introdutórias no Pavilhão Central: o Pavilhão dos Artistas e Livros e o Pavilhão das Alegrias e Medos, seguidos por sete outros capítulos através do Arsenale e do Giardino delle Vergini: o Pavilhão do Espaço Comum, Pavilhão da Terra, Pavilhão das Tradições, Pavilhão dos Xamãs, Pavilhão Dionisíaco, Pavilhão das Cores e o Pavilhão do Tempo e do Infinito.

Não existe, na verdade, separação física entre os pavilhões, que fluem juntos como capítulos de um livro. Cada um conta uma história que muitas vezes é discursiva e em outras ilógica com desvios que refletem a complexidade do mundo, a multiplicidade de abordagens e a ampla variedade de práticas.

Esta Bienal foi pensada como uma experiência, um movimento de extroversão do eu para o outro, em direção a um espaço comum além das dimensões predefinidas. 

Veneza este ano estava ainda mais cheia de visitantes que o normal, a ansiedade para a inauguração da Bienal era enorme e se percebia nas ruas. A arte, cada ano que passa, vai tomando um lugar mais importante na vida de um número sempre maior de apreciadores e isso fica bem claro em um evento desse porte.

Essa Bienal foi especial, foi mais alegre, mais positiva como o tema propunha, e o clima nos pavilhões refletia isso. Eram filas enormes para visitar cada pavilhão e uma grande agitação tanto nos Giardini como no Arsenale.

Começando pelos “Giardini”, no Pavilhão Central ficam dois dos capítulos importantes desse percurso proposto por Christine: o Pavilhão dos Artistas e Livros e o Pavilhão da Alegria e do Medo.

A ideia para o primeiro pavilhão era convidar os visitantes a se perguntarem como vivem os artistas seu mundo material e espiritual. Aqui entre muitas obras encontramos o trabalho “Green Light”, de Olafur Eliasson, ocupando uma sala inteira bem na entrada, segundo o artista, seu trabalho é um ato de boas vindas dirigido aos que fugiram de guerras, dificuldades e instabilidades em seus países de origem e aos moradores das cidades que os recebem. “Green Light” é uma estratégia modesta de abordar os desafios e as responsabilidades decorrentes da situação atual e coloca em foco o valor do trabalho e pensamento colaborativo. Assim 80 participantes de uma ampla gama de países – incluindo Nigéria, Gâmbia, Síria, Iraque, Somália, Afeganistão e China – participam do programa, trabalhando ao lado do público para fabricar lâmpadas de luz verde, que funcionam sozinhas ou em conjunto, criando estruturas mais complexas.

A sala logo depois dedicada aos livros queimados de John Latham é imperdível!

A seguir, no Pavilhão da Alegria e do Medo, encontramos trabalhos marcantes como os da artista canadense Hajra Waheed.

Em seguida, uma sala dedicada a Kiki Smith, com seus belíssimos desenhos e pinturas em vidro, os intrigantes retratos do siriano Marwan, as meias-calça de Senga Nengudi, a série “DNA Series”, de McArthur Binion, que de longe parecem abstrações, mas na realidade são interferências sobre peças autobiográficas como sua certidão de nascimento, documentos pessoais, etc., entre muitos outros artistas e obras bárbaras…

Ainda nos Giardini, partindo para os pavilhões nacionais, o Pavilhão Brasileiro era parada obrigatória, com a instalação “Chão de Caça”, desenvolvida pela artista Cinthia Marcelle e curado por Jochen Volz. Nosso pavilhão foi um ponto marcante da Bienal e muito elogiado. A obra é forte e causa uma sensação de desconforto e insegurança… um piso inclinado, feito de grades soldadas, ocupa o interior das duas galerias do pavilhão, pedras entrelaçadas e amontoadas nas grades, na segunda galeria hastes de madeira com pinturas nas pontas que parecem bandeiras brancas, e ainda um vídeo que, pelas cores dos uniformes e pelo ato de desmantelar um telhado, sugere que os personagens sejam prisioneiros preparando-se para uma fuga ou um protesto, lembrando décadas de rebeliões em prisões no mundo todo e os terríveis massacres nas penitenciárias brasileiras nos últimos meses. Segundo Jochen Volz, curador do pavilhão, “Marcelle joga com a ambiguidade, cria um ambiente enigmático, guiado por suspensão, obsessão, rebelião. A instalação como um todo provoca certa sensação de instabilidade”. Está imperdível e ganhou o prêmio de Menção Especial.

Logo depois, dirigimo-nos ao pavilhão da Alemanha, com a instalação “Faust”, de Anne Imhof, que já era o mais comentado e acabou por ganhar o Leão de Ouro pela melhor participação nacional. Chegando lá, percebemos as grades em volta de todo pavilhão com cachorros dobermans dentro que andam impacientes de um lado para o outro e vemos placas que anunciam: “essa área é protegida por cães de guarda treinados, não se aproxime!”. Entrando no pavilhão, percebemos que estamos sobre uma plataforma de vidro com piso e paredes cristalinas e, ao nosso lado, abaixo de nós, sobre nós, vemos performers vestidos de preto representando pessoas comuns, sem enfatizar gênero, religião ou qualquer outra coisa, apenas indivíduos… vemos também, embaixo do vidro, objetos organizados em grupos: um colchão de couro, algemas, colheres, correntes e garrafas de líquidos de natureza duvidosa. O pavilhão cheira a desinfetante sanitário. Os performers se movem o tempo todo por todos os lados, visivelmente exaltadas, juntos e separados… olham-se, olham seus celulares… então uma trilha sonora inquietante começa e os artistas todos se reúnem como um exército de zumbis no centro do pavilhão. A obra trata de exclusão e inclusão, quem pode entrar e quem é deixado de fora, pensamos nos limites das fronteiras nacionais em um cenário macro, da mesma forma que associamos à exclusão por grupos e camadas socias. A obra trata também da vida contemporânea cada vez mais vivida por meio das mídias sociais. A performance mostra como expomos nossas vidas em tempo real nas redes, quase como animais em gaiolas de vidro simbólicas, onde podemos ver e ser vistos, mas estamos presos. Sem dúvida, é perturbador!

É importante visitar o Pavilhão dos EUA, com a exposição “Tomorrow is Another Day”, de Mark Bradford, que trata das questões encaradas pelo grupo de pessoas marginalizadas pelo sistema, fala de suas vulnerabilidades e de sua resiliência.

O Pavilhão da Áustria, com trabalhos dos artistas Erwin Wurm e Brigitte Kowanz, expõe o que chama de “One Minute Sculptures”, esculturas que fizeram grande sucesso e foram muito fotografadas na Bienal e nascem da interação entre objetos comuns e os visitantes da exposição. Ela expõe belíssimas esculturas feitas de luz e material reflexivo.

O Pavilhão da Grã-Bretanha também causa impacto com a instalação “Folly”, da artista Phyllida Barlow, apresenta esculturas colossais feitas de materiais baratos e reciclados.

O pavilhão da Dinamarca tem concepção da artista Kirstine Roepstorff, que removeu suas janelas e paredes e reprojetou seu jardim de forma que este invadisse as galerias da construção. A ideia é a remoção das barreiras entre o território nacional demarcado pelo pavilhão e os elementos externos, entre o “dentro” e o “fora”, cultura e natureza, arte e mundo.

E, por fim, o Pavilhão da Bélgica, com as fotos de Dirk Braeckman.

No Arsenale, onde continua a grande mostra de Christine Macel, o impacto visual é grande. Dividido em pavilhões, como dito antes, que procuram contar uma história em partes, já na entrada somos envolvidos em uma grande viagem por realidades e mundos de artistas bem diferentes e com trabalhos muito interessantes. Uma viagem muito cativante!

O trabalho “Zero to Infinity”, do artista Rasheed Araeen, recebe-nos no Pavilhão do Espaço Comum.

Nos pavilhões do Arsenale, descobri o trabalho de alguns artistas fantásticos, como Maria Lai, com trabalhos tocantes e muito sensíveis, como “Legarsi alla Montagna”, “Geografia”, “Bread Encyclopedia”, “Scalp Book”, Lee Mingwei, com seu “Mending Project” logo na entrada, Franz Erhard Walter e seu “Eight Stride Pedestals”, Michel Blazy e seu trabalho “Aqua Alta”, além de uma instalação central no pavilhão que lembra uma prateleira de tênis em um shopping abandonado onde uma floresta começa a crescer dentro de cada sapato; Julian Charrière, com “Future Fossil Spaces; Michele Ciacciofera, com duas instalações lindas; Leonor Antunes, com a belíssima instalação “Then we Raised the Terrain so That I Could See…” bem central no Pavilhão da Tradição; Yee Sookyung, com seu “Translated Vase Nine Dragons in Wonderland”; nosso Ernesto Neto, com seu “A Sacred Place”; Sheila Hicks, com “Scalata al di là dei terreni cromatici”; Edith Dekyndt, com a performance “One Thousand and One Night”; Liu Jianhua, no final do Arsenale, com sua instalação deslumbrante “Square”.

E, para finalizar, Alicja Kwade, com os trabalhos “WeltenLinie” e “Pars pro Toto”, que desafiam nossa percepção de tempo e espaço e são belíssimos!

Como pavilhões nacionais no Arsenale, precisamos falar do Pavilhão Itália, cujo título este ano é “Il Mondo Magico” e foi curado por Cecilia Alemani. O título é uma referência direta ao livro de mesmo nome de Ernesto de Martino, publicado em 1948. Os artistas escolhidos são Giorgio Andreotta Calò, Roberto Cuoghi e Adelita Husni-Bey. Para os três artistas, a magia não é um escape para a irracionalidade, mas uma nova maneira de experimentar a realidade e, segundo eles, a magia pode ser uma poderosa ferramenta para habitar esse mundo e compreendê-lo em toda sua riqueza e multiplicidade. O que experimentamos como visitantes no pavilhão são obras representadas em narrativas, com universos estéticos complexos que se apoiam sobre rituais, mitos, crenças e contos de fadas e transitam entre o real e o imaginário, o ambiente é escuro, confuso e misterioso, algumas obras são verdadeiramente repulsivas, especialmente as de Roberto Cuoghi.

O Pavilhão da Tunísia, com o título “A Ausência de Caminhos”, que está oficialmente localizado no Arsenale, mas se expande para três quiosques em torno de Veneza, dos quais são emitidos falsos documentos de viagem chamados “Freesas”, como uma espécie de “Free Visas”. Para validar o documento, os visitantes o marcam com a sua impressão digital e, simultaneamente, concordam em “endossar uma filosofia de liberdade universal de movimento sem a necessidade de sanção arbitrária baseada no estado”, como avisa uma página no folheto do tamanho do passaporte. O projeto trata, por um lado, da grave crise dos refugiados e por outro faz uma paródia com o privilégio dado aos eventos mundiais culturais e artísticos. Atualmente, os quiosques são tripulados por jovens homens tunisianos que tentaram atravessar o Mediterrâneo várias vezes para se tornarem migrantes, mas não alcançaram o outro lado. Em virtude das circunstâncias especiais da Bienal de Veneza, os homens receberam vistos de turista de um mês. Os migrantes bengaleses sem sucesso os seguirão nos próximos meses e um grupo da África Subsaariana chegará a Veneza por último.

No Pavilhão da Geórgia, o artista Vajiko Chachkhiani apresenta a instalação “Living Dog among Dead Lions”, uma visão poética de recentes eventos traumáticos na Geórgia e ao redor do mundo. Para a instalação, o artista desmantelou um casebre de madeira do interior da Geórgia e remontou essa casa dentro do pavilhão com móveis, quadros, utensílios e outros objetos cotidianos de uma vida simples. Com um sistema de irrigação, chove sem parar dentro da casa. É uma imagem perturbadora que cria uma forte metáfora para a condição humana.

O Pavilhão da África do Sul apresenta os artistas Candice Breitz, com seu trabalho “Love Story”, e Mohau Modisakeng, com seu “Passage”. Ambos abordam a questão da migração forçada. “Passage” é uma projeção simultânea de três canais que, com a imagem de barcos à deriva e pessoas flutuando aparentemente sem vida, simboliza os muitos que chegaram e partiram da África do Sul como mercadorias, escambos ou corpos transitórios que pertenciam a lugar nenhum. Em “Love Story”, na primeira sala, presenciamos um vídeo em forma de entrevista com Alec Baldwin e Julianne Moore, que recitam entrevistas dadas por seis refugiados. Os dois atores contam as experiências em primeira pessoa, as dores, tristezas, as incertezas e o medo dessas pessoas que deixam suas vidas para trás à procura de sobrevivência e esperança. Na segunda sala, vemos os próprios refugiados contando suas experiências reais. O percurso escolhido pela artista mexe muito com o expectador, à medida que esse se dá conta de que se emocionou e pôde se relacionar com os relatos pelo fato de estarem sendo representados por atores hollywoodianos. Afinal de contas, essa é uma realidade muito presente em nossas vidas, convivemos com refugiados nas ruas, vemos e lemos todos os dias suas histórias em jornais, mas preferimos nos proteger e não pensar sobre essa grave situação, preferimos não empatizar com suas dores e questões complicadas e de difícil solução.

Foi como sempre uma Bienal marcante que não sai fácil da cabeça, que cria novas conexões, novas percepções do mundo e dos imensos conflitos que estamos envolvidos. É um percurso que nos emociona, faz sentir e refletir sobre questões que estavam lá o tempo todo, mas, ao vê-las representadas pelos olhos de um artista, parece que ficam mais nítidas. A arte é isso, uma alternativa evidente ao individualismo e à indiferença. Em uma época de desordem global, a arte abraça a vida. O papel, a voz e a responsabilidade do artista são mais cruciais do que nunca no âmbito dos debates contemporâneos. É dentro e através dessas iniciativas individuais que o mundo de amanhã toma forma, que, embora certamente inseguro, é muitas vezes melhor intuído por artistas do que outros.

Segue uma lista das mostras imperdíveis em Veneza:

Doing Time de Tehching Hsieh no Palazzo dele Prigione

O Pavilhão de Cuba com a mostra Tiempo de la Intuicion no Palazzo Loredan em campo Santo Stefano

One and One Makes Three de Michelangelo Pistoletto na Isola de San Giorgio Maggiore

Future Generation Art Prize no Palazzo Contarini Polignac

Minimum/Maximum de Alighiero Boetti na Fondazione Cini

Palazzo Fortuny com a mostra Intuition

La Series / Us Silkscreeners… exposição de Robert Rauschenberg que trata também de sua relação com Warhol na Fondazione Giorgio Cini

Le Liens des Mondes da artista Claudine Drai na Galeria do Palazzo Contarini-Polignac

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