© Francesco Galli, Cortesia Bienal de Veneza

Massimiliano Gioni, diretor e curador da exposição principal da atual Bienal de Veneza, inspirou-se na ideia de Maurino Autiti que planejou, em 1955, construir um museu imaginário – denominado O Palácio Enciclopédico – que abrigaria todo o saber da humanidade, incluindo sonhos, delírios e obsessões.

A mostra principal no Pavilhão Central do Giardini , Il Palazzo Enciclopédico, começa por uma sala dedicada às imagens do Livro Vermelho de Carl Gustav Jung, psicanalista suíço, e continua através de um amplo espaço rodeado por desenhos em quadros-negros, de Rudolf Steiner. No centro desta segunda sala, um trio de artistas: de Tino Sehgal, artista britânico de origem indiana, uma obra que emite sons embalando gestos estranhos que não se parecem propriamente com movimentos de dança, mas com uma forma simplesmente curiosa e familiar de movimento.

A primeira impressão, logo na entrada, resume bem tudo o que será visto a seguir: uma seleção de obras que parece interminável. Tudo ganha um ritmo interessante quando em meio a tantos escritores, cientistas, colecionadores e outros sem classificação possível (e que tentaram, em vão, fornecer sentido ao incompreensível) misturam-se obras de arte contemporânea, causando surpresas e momentos de espanto.

Tocando no limite entre arte e “não-arte”, a exposição nos permite experimentar, de variadas maneiras, as funções da imaginação nos campos do conhecimento, da ciência, do oculto, do misterioso.

As representações nacionais, como geralmente ocorre, seguem nos pavilhões do Giardini com disparidades gritantes. Destaque para Alfredo Jaar, representante do Chile, afundando, literalmente, as instalações da Bienal de Veneza para contestar como uma mostra mundial ainda se divide por países, desconsiderando o estado transacional da arte e da cultura contemporânea de um modo geral.

Mesmo assim, a organização espacial do Giardini continua exercendo uma forma de oxigenação em Veneza. Dos diversos pavilhões, destaca-se a Espanha que surpreende com uma obra impressionante de Lara Almarcegui: são montanhas de entulho que correspondem ao material necessário para construir o próprio pavilhão, comentando, entre outras coisas, sobre a crise econômica do país.

Alemanha e França trocaram pavilhões. Alemanha traz Ai Weiwei para o pavilhão da França, enquanto a França traz o artista albanês Anri Sala para ocupar o pavilhão alemão. Ai Weiwei parece estar em toda parte. Além da instalação Bang – uma floresta de bancos de madeira entrelaçados – como a peça mais importante do pavilhão alemão, sua obra está também na ilha da Giudecca com a instalação em linha reta de 150 toneladas de ferro, trazidos da área atingida pelo terremoto de Sichuan de 2008. O artista também apresenta mais uma obra na Igreja de Sant Antonin, onde cenas de sua detenção podem ser vistas no interior de seis grandes caixas de ferro.

No pavilhão britânico, onde se vê um “retrato” geral da Grã-Bretanha, Jeremy Deller é uma das grandes atrações com sua dura crítica contra o sistema. A mostra chamada de Magia Britânica começa com a imensa imagem de uma ave de rapina – um tartaranhão-azul – com uma Range Rover em suas garras. Entre outras obras de Deller, há também um filme que faz associações de forma lúdica, mostrando que o material de trabalho do artista é retirado do que está ao seu redor. Deller se mostra um mediador genial. Uma trilha sonora de David Bowie interage com uma sequência de imagens: incríveis justaposições de belos movimentos em câmera lenta de aves em extinção são seguidas da dança de uma máquina esmagadora de Range Rovers e a sequência continua passando, entre outras coisas, por uma enorme e variada Parada do Prefeito com inúmeros comentários, culminando com o Stonehenge de Deller, onde crianças saltam e correm alegremente. Os conflitos da cultura britânica são mostrados ao lado de uma sala em que é servido o tradicional Earl Grey Tea. Literalmente, Deller nos convida para uma bem-vinda xícara de chá depois de uma olhada pelo entorno.

Fora do Giardini, logo na saída, o Trafaria Praia – barco que Joana Vasconcelos transformou no Pavilhão de Portugal – convida para um passeio por Veneza. No lugar de um convencional pavilhão com uma localização fixa está um pavilhão flutuante que torna o espaço fluido e móvel, ultrapassando as questões de território e poder.

Além das exposições nacionais, nesta edição, acrescida de dez novos participantes – entre os quais o Vaticano -, a 55a Bienal de Veneza continua no Arsenale e tem mais 47 eventos paralelos espalhados por pela cidade até 24 de novembro.

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