© Isabella Matheus

Em tempos difíceis, a cultura floresce. Os anos 1930, o auge da Grande Depressão, são considerados a era dourada do cinema norte-americano; o final do Segundo Império criou o ambiente onde floresceu o impressionismo na França. No Brasil não foi diferente. A ditadura plantou as sementes do tropicalismo, da performance e de outros movimentos culturais que colocam as décadas de 1960 e 1970 entre as mais valiosas de nossa história cultural.

A Dasartes reuniu depoimentos de dois artistas que viveram os anos de ferro e do curador da Bienal da Bahia, Marcelo Rezende, como contexto para as exposições dedicadas ao tema.

 

“O estágio de formação e amadurecimento de minha obra aconteceu entre 1973 a 1985 – de Médici à redemocratização – publicando na imprensa, especialmente na considerada alternativa, que se opunha ao regime militar. Em 1969, concluí o curso de Agronomia. Durante o período universitário, tive duas prisões políticas e, devido às restrições existentes naquele contexto, fiquei impossibilitado de conseguir emprego. Nesse vazio que se criou, redefini minha vida e comecei a desenhar, o que se tornou uma opção que se mantém no presente.

Reproduzo um trecho de meu depoimento publicado no livro, em 1985, Circo Editorial – SP, com obras que produzi no período: “Quanto à presença da questão política no trabalho, acho que está ligada ao fato de vivermos em uma sociedade profundamente injusta, e naturalmente me preocupa a dor que nela ocorre. Eu não me sinto um político, no sentido de estar disputando lugares nem no sentido de estar preso a soluções. Não tenho soluções políticas a oferecer, tenho sentimentos – um sentimento humano colocado em jogo, uma identificação com as pessoas e uma recusa em aceitar a injustiça e a dor”.

Rubem Grilo

 

“Se a Ditadura Militar pegou de surpresa, em 1964, nós, que já estávamos acostumados há algum tempo com o sistema democrático; com a decretação do Ato Institucional n.º 5, em 1968, as coisas iriam piorar. A crescente conscientização de parte da nossa população, de universitários a professores, intelectuais da esquerda, cientistas sociais e artistas das várias áreas, através de suas ações, levaria a uma violência maior por parte dos militares. Prisões cada vez mais arbitrárias e frequentes; tortura instituída, seguida de morte de um sem número de homens e mulheres tornados lumpens, destituídos de sua cidadania… Nós, alguns dos artistas atuantes, participantes da Bienal Internacional de São Paulo, reunimo-nos em uma sala do MAM-RJ assumindo o boicote total a quaisquer mostras nacionais de caráter institucional. É nessas horas que o artista assume não ser somente o intérprete, mas ideologicamente o próprio mensageiro que precisa tornar sua obra mensagem, situação-limite. Assim ocorreu no meu engajamento naquele período. Mas, se por um lado, houve essa atitude, também foi nesse período que passaríamos por uma radical transformação na abordagem da arte, indagando sobre natureza, significado e função do objeto de arte e ainda sobre a própria função do artista naquele momento. Ninguém previa que passaríamos mais de 20 anos sob esse regime, que o isolamento causaria o afastamento e consequente impossibilidade de intercâmbio com a comunidade artística internacional, e ainda a constante preocupação com nossa integridade física e mental. Isso acarretou consequências que perduram até hoje, como o tardio reconhecimento da obra de alguns de nós, brasileiros da década de 1970.”

Anna Bella Geiger

 

“Há um número razoável de urgências que cercam o retorno de bienais para a Bahia: dever da memória com uma geração, a necessidade de diálogo a partir da perspectiva baiana e nordestina frente aos hegemônicos centros culturais e econômicos brasileiros e internacionais, o trabalho sobre o trauma, os fantasmas do Golpe de 1964 e a incorporação de uma outra narrativa na história da arte nacional são apenas alguns exemplos.

Criada em 1966 pelo estado da Bahia, a partir da ideia de um grupo de artistas liderado por Juarez Paraíso e Riolan Coutinho, a Bienal Nacional de Artes Plásticas da Bahia encontra seu fim em 1968, quando poucos dias após a abertura de sua segunda edição é fechada pela ditadura militar em razão de estar oferecendo “material subversivo” ao público. Esse episódio marca possivelmente o maior ato de censura da história da arte brasileira. Mais de 600 artistas e cerca de 3 mil obras contidas nas portas fechadas do Convento da Lapa, na zona central de Salvador, proibidas ao público. Esse é o contexto, e as questões a serem pensadas, a herança do passado.

Mas, para a 3a Bienal da Bahia, um outro e urgente problema diz respeito ao presente: por qual razão os fatos de 1968 são apenas um pequeno pé de página na imensa biblioteca crítica da cultura brasileira? Por qual razão a ideia de um contra-discurso frente aos modelos de bienais (Veneza e São Paulo) e ao sistema institucionalizado da arte proposto na região nordeste do país parece, quase 50 anos depois, uma não questão, um não acontecimento, uma não presença?

Nesse momento de retorno de projetos de bienais – nessa escala – para a região nordeste, mais de quatro décadas desde o gesto de censura que provocou a experiência traumática, a primeira missão é reabrir esse arquivo perdido procurando compreender de que modo as forças em oposição continuam ainda vivas, em combate em meio a arte, ao pensamento e a cultura nacional. Uma terceira Bienal em Salvador e mais de 20 cidades da Bahia, cerca de 200 artistas de mais de 30 nações. O diálogo se reabre, com a expectativa de que a biblioteca possa agora ser um pouco mais justa com sua própria história e personagens.”

Marcelo Rezende

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