© Autor desconhecido, Arquivo Histórico Wanda Svevo - Fundação Bienal de São Paulo

Além de uma escrita extremamente afiada e pouquíssimo barroca, de uma crítica que se aprofunda de maneira contundente dos trabalhos dos quais se aproxima, Paulo Venâncio Filho pertence a um grupo raro de curadores que jamais optou por revelar algo que não estivesse dentro do espectro das obras que são expostas, num exercício de fina sintonia que preza pela elegância e pela inteligência com que erige seu discurso que, apesar de optar por jamais abandonar o misterioso local no subsolo teórico que fundamenta a organização dos trabalhos, termina por construir uma parceria intensa e aderida entre pensamento e visualidade.

Coube a ele agora a curadoria dessa exposição comemorativa dos trinta anos da Bienal Internacional de São Paulo ao longo de seis décadas de desbravamentos, sucessos, invenções, relações diplomáticas, problemas políticos, fracassos, pichações, ditaduras, paisagens nebulosas, edições pouco compreendidas como a paradigmática Bienal do Vazio, de 2008, bienais importantíssimas como, por exemplo, a de 1998, curada por Paulo Herkenhoff; ou, ainda, exposições que conseguiram revitalizar o processo de decrepitude que eventualmente envolveu a própria história da Bienal; como a décima sexta, de 1981, sob a responsabilidade de Walter Zanini, que revelava um desejo de retomada da relevância cultural e artística que foi se perdendo ao longo dos anos 1970, em virtude dos processos tirânicos e de um boicote internacional feito à exposição no ano de 1969.

Tudo isso esta lá, nas colunas do prédio do Ibirapuera e na memória própria que eventualmente se perdeu ao longo dos anos, ao longo de um percurso respeitável da segunda Bienal criada no mundo após a de Veneza, movida por um desejo claramente político de inserção do Brasil no discurso artístico (econômico?) mundial, desafiando os interessados, os governantes e mesmo os artistas por não acreditarem logo no início em sua potência e na possibilidade de estabelecimento de um programa de exposição de cunho internacional a ser realizado em um país até então periférico. E num golpe rápido ao longo de toda a sua história, podemos colocar em contraste absoluto a efervescência dos anos iniciais com as crises recentes na Fundação Bienal, de sua quase impossibilidade de realização no próximo ano de 2014, dos escândalos vergonhosos que por pouco (não?) arranharam de maneira considerável sua idoneidade, e a última notícia de liberação de suas contas, concedida pelo Ministério da Cultura para a captação de recursos por meio de um acordo firmado para o pagamento de suas dívidas de mais de R$ 12 milhões ao longo de seis anos, em virtude de graves irregularidades detectadas pela Controladoria Geral da União em prestações de contas entre os anos de 1999 e 2007.

Tudo isso estará lá? Talvez sim. Talvez não. E talvez, de fato, sejam coisas que não importem tanto quando colocadas ao lado de um conjunto infinito de obras e de artistas que puderam, ao longo de todo esse tempo, exibir seus trabalhos, estabelecer conexões, pensar seus processos de criação e reinventar a poética que ergue e fundamenta suas ações. As obras, de fato, talvez estejam numa esfera vizinha de toda a movimentação política e econômica que as atravessa, mas, de qualquer forma, é impossível pensar em uma exposição comemorativa que apenas as exiba sem conseguir problematizar, mesmo que de maneira longínqua um conjunto de intempéries que envolveu a história da Bienal, da mesma maneira que a história do próprio país, revelando com clareza e crueza, o déficit estrutural que açoita o país em sua impossibilidade de manutenção de uma lógica de funcionamento que conseguiu, ao longo de um tempo determinado e em virtude de um esforço inenarrável de um conjunto de pessoas, ser vitoriosa e extremamente relevante. A ideia de comemoração das trinta edições da Bienal não merece ser ingênua, pois, se assim o for, parecerá filha de uma traição histórico-conceitual que às vezes se descortina como hábito e fruto de certo brasileirismo cordial “para inglês ver”. Encarar a empreitada de comentar tantos anos é assumir a responsabilidade de discutir todas as camadas sub-reptícias que envolvem a obra de arte e, por consequência, as Bienais de Arte, o sistema e o mercado, bem como sua validade e a tensão de seus eixos.

O interessante, neste caso, é que Paulo Venâncio Filho não é um curador que se interesse completamente por tais questões, muito em virtude pelo respeito absoluto que tem pela experiência estética, pela reflexão nascente ali e pelo moto-contínuo dos trabalhos que provocam tais reverberações e que, inevitavelmente, atravessam os anos e constroem por si mesmos uma narrativa histórica da própria arte; neste caso,brasileira enquanto tal. Surge então um impasse, um belo paradoxo a ser revelado ao longo da exposição que também exibirá parte do arquivo histórico Wanda Svevo, um dos mais importantes acervos documentais da América Latina sobre arte moderna e contemporânea. Ao público, caberá montar as peças de tal quebra-cabeça para investigar em que medida ainda merecemos comemorar por mais alguns infinitos anos.

BOX:
30 × bienal – Transformações na arte brasileira da 1.ª à 30.ª edição
Curadoria: Paulo Venâncio Filho
Fundação Bienal
De 19 de setembro a 8 de dezembro

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