DASARTES 23 /

30.ª Bienal de São Paulo, À iminência de uma mostra e suas poéticas

A Bienal deste ano quer trazer novidades e ampliar a aceitação dos mais diversos suportes para a arte.

Uma vez mais, os olhos do mundo da arte se voltam a São Paulo para acompanhar sua 30.ª Bienal. Com curadoria de Luiz Pérez-Oramas, que figura em nossa seção Entrevista, essa Bienal promete ser a mais diversa e inovadora dos últimos anos, começando pelo primeiro critério de seleção dos artistas, que foi excluir qualquer nome que tivesse participado nas duas últimas edições. Também a mais internacional, com apenas 23 artistas brasileiros entre os 111 selecionados, e apenas um brasileiro, André Severo, no time de quatro co-curadores, que conta ainda com o alemão Tobi Maier e a venezuelana Isabela Villanueva, sob a liderança do colombiano Oramas, estes três radicados em Nova Iorque.

É difícil dizer o que esperar da Bienal, que traz a expectativa no próprio título, A Iminência das Poéticas. A curadoria se orientou pelos temas da recorrência, transitoriedade, multiplicidade, transicionalidade e permanente mutabilidade das poéticas artísticas, exaltando o caráter elusivo de uma definição da expressão criativa e nos levando a esperar uma Bienal rica na variedade de suportes e estilos. Isso já justifica a seleção de algumas obras, como Cadu e suas máquinas, os mantos de Artur Bispo do Rosário, as tubulações de Charlotte Posenenske e os abanadores de f. marquespenteado. Esses temas foram organizados sob o mote da Constelação, ou melhor, constelações de obras e artistas que conversam entre si e estabelecem relações que dotam o conjunto (e a visita) de significados.

No mapa da mostra, são essas constelações que orientam a posição das obras e os diálogos oferecidos pela proximidade, e não as quatro zonas curatoriais: Sobrevivências, Alterformas, Derivas e Vozes. Diferente do que o termo um tanto geográfico leva a entender, as zonas são princípios conceituais e não expositivos, ou seja, foram apenas orientadores na seleção dos artistas, mas não necessariamente serão percebidas pelo visitante.

Sobrevivências identifica analogias entre obras referenciais e a produção atual. Alterformas complementa essa proposta com obras mais contemporâneas, cuja concepção possa derivar, de forma consciente ou inconsciente, de deformações ou alterações de leituras do clássico e moderno, em especial da modernidade latino-americana. Derivas parte dos artistas referenciais da mostra para identificar derivações de suas linguagens e formas em outras obras, incluindo aquelas que a tecnologia tornou possíveis posteriormente. Vozes foca nas obras em que a voz está presente, seja como som ou como performance. Uma quinta zona transversal, Reverso, propõe levar a Bienal para as ruas, com intervenções urbanas, mostras em parcerias com outras instituições, peças teatrais e outros eventos.

Para trazer até você uma seleção das obras de Bienal, a Dasartes convidou alguns críticos e curadores para falar sobre seus artistas.

Hans-Peter Feldmann por Hans Ulrich Obrist, diretor da Serpentine Gallery, crítico e curador independente, Londres

Por mais de três décadas, Hans-Peter Feldmann tem trabalhado para legitimar meios básicos e ignorado como a matéria-prima da arte, desde as efemeridades do dia-a-dia até álbuns de fotos, trabalhando esses materiais em montagens enigmáticas e séries de objetos que pairam no limite entre a “serialidade” da Arte Conceitual e a recuperação e reuso de assuntos demóticos da Pop Art. Ele também é um progenitor-chave do livro do artista, estabelecendo-o como forma reconhecida para a prática artística, embora o trabalho de Hans Peter em si tivesse sido marcado por uma desconfiança persistente de todos os confortos do estilo e evitado em todo o caminho o formalismo.

O ato de colecionar é um impulso orientador para a prática de Hans-Peter e, como Walter Benjamin observou, “existe na vida de um colecionador uma tensão dialética entre os polos da desordem e da ordem”.

Hans-Peter Feldmann é um dos maiores e mais influentes artistas atualmente em atuação.

Eduardo Berliner por Daniela Labra, curadora e crítica independente, Rio de Janeiro

Eduardo Berliner é um dos nomes mais significativos da nossa pintura recente. Em menos de dez anos, despertou a atenção com pinturas carregadas de matéria e texturas, onde se viam figuras de crianças, animais, paisagens e brinquedos dilacerados. A fatura violenta de Berliner diminuiu, dando lugar a conjuntos mais silenciosos – porém não menos perturbadores.
Um lado pouco conhecido do artista é a vasta produção de fotografias, desenhos e objetos que nasceram da pesquisa de imagens para seu arquivo pessoal. Na 30.a Bienal, esse material é reunido com telas e aquarelas recentes, em uma espécie de revisão de sua produção. Esta revela trabalhos surgidos despretensiosamente e que, com o tempo, se mostraram potentes como obras de arte.

Sheila Hicks por Isabela Villanueva, curadora da Bienal, Nova Iorque

As obras de Sheila Hicks cruzam as fronteiras de pintura, escultura, desenho e têxteis. Por mais de seis décadas, o trabalho de Sheila vem explorando e experimentando, constantemente, com materiais e metodologias, questionando, assim, a divisão entre arte, design e artesanato. Sheila usa o fio para jogar com as cores, mas também com padrões, divisões, assimetrias – como se pode notar em suas Minimes (que ela começou a produzir nos anos 1950 e continua produzindo) e que vamos mostrar na 30.ª Bienal.

August Sander por Phillip Larrat-Smith, curador independente ligado ao Malba, Buenos Aires

A ambição que estava por trás de Gente do Século 20, de August Sander, era nada mais do que produzir um arquivo fotográfico de abrangência enciclopédica sobre o povo alemão. O retratista tentou capturar não o interior ou a psicologia do fotografado, mas as características universais que sobram quando tudo o que é não essencial fora arrancado fora. No entanto, esta fotografia de três homens virados atenciosamente para o olho da câmera retém um a densidade e mistério quase impenetráveis. Citando Diane Arbus, cuja visão irredutivelmente singular ainda assim abraçou questões de tipologia e universidade, e cujo trabalho modificou retroativamente o significado do de Sander, em um simpático dialeto borgesiano: “o que sobra quando se tira o que alguém não é é aquilo que alguém é”.

Marcelo Coutinho por André Severo, curador da Bienal, Porto Alegre

Movido pela tentativa de entender o que se passa fora da linguagem, Marcelo Coutinho concentra sua pesquisa teórico-plástica em torno da criação de palavras que procuram definir sensações avessas ao código preestabelecido da língua portuguesa. Iniciado em 1997, o projeto do artista colocou em curso a construção de um dicionário que se montava sobre um paradoxo: a nomeação de algo cuja natureza seria justamente escapar das nomeações. Para ilustrar os enunciados que criou e conferir potência de comunicação a seus verbetes, Coutinho experimenta seus significados e os materializa em performances, fotografias, objetos, esculturas, instalações e elaboradas experiências audiovisuais que deixam à mostra a falência da representação.

Mobile Radio por Tobi Maier, curador da Bienal, Nova Iorque

O Mobile Radio é uma colaboração de dois artistas, Sarah Washington e Knut Aufermann. O trabalho deles varia de arte sonora à criação de estações de rádio conceituais, instalações ao vivo e experimentos com a fábrica eletromagnética do rádio em si. Emanando a partir da rádio seminal londrina Resonance104.4FM, eles fundaram a rede de rádio internacional de arte Radia e colaboraram com mais de 40 estações pelo mundo afora. O Mobile Radio estará em residência em São Paulo de setembro a dezembro, com programação ao vivo da Bienal no parque do Ibirapuera.

Bas Jan Ader por Isabella Rjeille, crítica e curadora independente, São Paulo

A curta produção deixada pelo artista holandês Bas Jan Ader (1942-1975) habita um universo de simplicidade e ironia. Ader realiza uma estranha e, por vezes, obsessiva aproximação entre arte e vida, muito recorrente em trabalhos dos anos 1970 nos Estados Unidos. Seus vídeos e fotografias apresentam situações eventualmente cômicas e melodramáticas. Ator e diretor de sua própria produção, Ader experimentava frequentemente sua própria queda, ou a queda de objetos sobre outros objetos, expondo as forças que regem o universo e colocando-se em uma constante sensação de fragilidade diante do mundo.

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