Se a história da arte nos últimos três séculos, desde a afirmação da modernidade, toma por base o vínculo inseparável entre arte e política, como pensá-lo hoje? Afinal, várias aproximações, mais ou menos diretas, podem ser ensaiadas, desde a questão da última Documenta de Kassel (2007), cuja pergunta sobre a modernidade como nossa Antiguidade permitiria examinar as tensões, avanços e descompassos formadores do mundo contemporâneo, passando pelas diferentes tentativas de firmar outros pontos de partida e chegada da arte que ampliem o tradicional esquema de centros geradores/periferias reprodutoras que ainda persistem na geografia da arte. A vontade de responder o que seria esta outra política da arte foi abordada pelos dois curadores da Bienal de São Paulo deste ano na entrevista publicada na edição número 11 de Dasartes (agosto-setembro 2010). Para esta edição, convidamos a professora Sheila Cabo, da UERJ, para traçar algumas considerações sobre tal relação, além de apresentarmos ao leitor uma introdução à 29a Bienal de São Paulo com sua programação diversificada, assim como os eventos paralelos que a acompanharão direta ou indiretamente.

O que seria falar de arte e política hoje? O assunto é tanto mais presente quanto problemática é sua condição. Após constatar o quanto os discursos celebratórios do “fim da história” nascidos após a queda do muro de Berlim se mostraram ambíguos, ao acompanhar as injunções do sistema de arte diante da produção contemporânea, cabe examinar o que entendemos por arte e política hoje, pois nos dois casos implica a redefinição de práticas e categorias cujos contornos mudaram substantivamente de figura.

O objetivo de nosso dossiê é menos resolver tais questões do que oferecer ao leitor entradas pelas quais ele pode refletir sobre o assunto, cotejando-as com a própria Bienal. Nesse sentido, porém, algumas das contribuições de nossos autores merecem ser vistas para além dela. São talvez horizontes afins, mas cujos desdobramentos ainda seguem em aberto e tanto se valem dela quanto podem (ou precisam) ultrapassá-la. Parafraseando uma colocação feita há alguns anos pela crítica e curadora Glória Ferreira, devemos seguir indagando que história é essa?, ou seja, que narrativas são essas a partir das quais construímos nosso olhar e nosso lugar no mundo. Lugar este que, em um mundo que, quanto mais proclama sua globalidade, mais tem que lidar com seus efeitos ora colaterais, ora inesperados, reclama ser reconquistado. Saber como fazê-lo é uma de nossas responsabilidades.

 

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