Silêncio Impuro – Anita Schwartz galeria

As quatro obras do salão principal da Galeria Anita Schwartz parecem se perder no imenso pé-direito do ambiente. A iluminação dramática, que lança sombras bem delineadas no chão e nas paredes, colabora com esta sensação. Á direita de quem entra está uma escultura intrigante de Carla Guagliardi, “O lugar do ar” (2015). São esferas de espuma de diferentes tamanhos presas por placas de madeira articuladas. Temos que segurar o impulso de mexer nas placas, a escultura parece pedir que o façamos: as placas são presas na parede por dobradiças! Mas freamos, sabemos que as bolas cairão, que a beleza tênue da escultura se desfará. Calo-me, baixo a cabeça, me afasto em silêncio (impuro?).

Á esquerda está “Partitura”, também da artista, uma pauta musical de grade assimétrica. Nas palavras de Felipe Scovino, “a escolha dos materiais (borracha, madeira, espuma) envolve um repertório de fragilidades e um equilíbrio precário”. “Tudo parece ruir ou estar prestes a desabar, mas por outro lado as obras evidenciam uma dinâmica que é própria da natureza do som: querem o ar”. Os metais de Otavio Schipper, familiares na sua semelhança com trompetes e cornetas, pendem do teto como que pra reforçar esta ideia. Ao fundo, uma instalação de Waltercio Caldas une molduras de metal com fios, demarcando o vazio, outro território do silêncio.

No andar de cima, outra “Partitura”, esta de Artur Lescher, uma série de imagens que à primeira vista parecem retratar constelaçõeo – pode haver música mais silenciosa que a das estrelas? O título nos orienta a enxergar esta música, pronta para ser tocada todas as noites em que não há nuvens. No centro da sala, no chão, Nuno Ramos inseriu em duas rochas de pedra-sabão, meio brutas e meio polidas, um par de baquetas e uma batuta, como fósseis pré-históricos preservados no sedimento. Sua música está presa na pedra.

Das duas obras de Cadu que ocupam as outras paredes, “Fuer Elise” é, obviamente, a mais musical. Partiu de uma caixinha de música que toca esta melodia de Beethoven, que deve ser a mais usada em caixas de música ao redor do mundo, e por um processo complexo transformou-se em um desenho plano, uma canção desconstruída. A outra obra usa o sol para “pintar” blocos de papel por meio de uma lente de aumento. De acordo com Scovino, “Não há som, apenas o seu caráter indicial e o processo de excluir ou escavar a matéria para revelar uma outra possibilidade de aparecimento ou ação poética da obra”.

A exposição finaliza com um registro em vídeo do trabalho de Tatiana Blass  “Metade da fala no chão – Piano surdo” (2010), Nele, um pianista executa uma melodia enquanto uma miistura de cera e vaselina é derramada sobre o piano, aos poucos impedindo que ele produza sons. Assim termina em silêncio também a exposição.

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