Festivafetiva, Cláudia Barbisan | Galeria Mamute

Barbie, where is your pussy?…

… estava escrito na camiseta que Barbi usava para ir ao supermercado comprar delícias. De dia Claudia Barbisan dava aula, provocando seus alunos e alunas a pensar sobre arte. De noite, cantava de botas brancas até o meio das coxasseduzindo a todos no Ocidente. De dentro de seu vestido de paetês, pela voz, assoprava purpurina furta-cor.


Claudia era uma deusa Vênus full-time. Quando chegava em sua carruagem comandada por cisnes, impregnava o ambiente de amor, lascívia e paixão. Talvez nem todos gostassem, alguns até invejavam, mas, sem dúvida, todos a percebiam. Chegava, chegando. No seu reino havia espaço para tudo: ela podia trabalhar em suas telas no ateliê, e receber amigos em outra sala. Estava sempre rodeada de seus cupidos e de suas graças, mas também de Mercúrios passageiros, Apolos gays e a sorridente Vanessa, a mulher da capa de maio, que virou displaye viajava com ela de avião.
Seguido Barbi ganhava lírios do Heron, “para levar os fãs ao delírio”, dizia ele. Outras flores exóticas brotavam sob a mesa de jantar, sempre lotada de livros. Era o grande banquete da eterna primavera: Ice Cream, Mulheres artistas nos séculos XX e XXI, Cy Twombly, William De Kooning, David La Chapelle, Duchamp, Pin-ups, Art Now e muitos outros. No MP3 ao lado da mesa tocava Le Tigre, New Young Pony Club, Cansei de Ser Sexy, Yelle, Hanin Elias, Vive la Fête, Stereo Total, PJ Harvey, Amy Winehouse, Feist e Peaches. Ela adorava mulheres que cantavam o que se passava por sua buceta, digo cabeça.

A Bela da Tarde era lacaniana de nascença. Compreendia tudo na primeirafrase e fazia trocadilhos que invertiam a lógica da poesia. Um discurso católico virava algo nada apostólico. Uma “oração” escrita no pano de prato, se transformava em “oh pição!” Largava afirmações inusitadas e fazia perguntas desconcertantes. Acredite, seu verso espontâneo acabava com o ego de qualquer desavisado. Era um grande alívio ter uma amiga assim: direta, divertida e calorosa.

Em determinado momento, Barbi soltou os cisnes para voarem para outros palcos e dispensou seus cupidos. Cansou da longa noite em claro e deixou a carruagem estacionada no ateliê. Só a usava quando saía para viajar com os amigos: Inhotim, bienais e documentas. Gatos aveludados surgiram do telhado e seduziram-na a ter uma vida mais silenciosa. Nesse período ela produziu muitas telas, colagens, desenhos e fez várias exposições. Também continuou jogando os dados e dando o jogo durante os ensaios da Fenda Bikini, sem, contudo, nunca marcar a data da estreia.
Claudia era sempre elegante, preciso dizer que não apenas por sua beleza cativante, mas por sua imensa gentileza. Ela compartilhava suas descobertas, seus livros, vídeos, vícios e doces, menos seus amores. Que isto fique entre nós! Sinceramente, quem ia querer seus amantes quando já estava hipnotizada por ela?

Barbi, She’s Ok.
Bettina Rupp
Mestre em História, Teoria e Crítica da Arte | PPGAV | UFRGS

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