José Paulo

Biografia
José Paulo Oliveira nasceu na cidade do Recife, Pernambuco, em 1962. Graduou-se em Arquitetura pela Universidade Federal de Pernambuco, em 1987. Dentre as linguagens que utiliza, contam-se a pintura, o desenho, a construção de objetos e esculturas em grandes formatos, além da aproximação com a fotografia e o vídeo, que se insinuam em seu trabalho como articuladores nos processos de criação, contudo ganham autonomia e se materializam como linguagens e poéticas autônomas, sobretudo em seu percurso poético nos últimos anos.
O exercício do desenho e da gravura ecoa como matrizes longínquas que insistem em se fazer presentes em sua obra, de maneiras variadas e diversas — de uma figuração expressiva, por vezes oriunda do neoexpressionismo alemão, devorado antropofagicamente pelo artista nos anos 1980 em viagens de formação continuada, a exemplo da realização dos cursos: Desenho e Pintura (Open Studio/The Heatherley School of Fine Arts, Londres, Inglaterra); Litografia e Gravura em Metal (The Byam Shaw School of Art, Londres, Inglaterra); e Aerografie (Centre National de L’Aerografie, Paris, França). Tais experiências se somaram aos percursos formativos (muitas vezes autodidatas) trilhados por José Paulo nessa mesma década, realizados na cidade do Recife. Porém um momento importante foi a formação na Faculdade de Arquitetura da UFPE (1981–1987). Em 1982, fez curso de extensão em Gravura em Metal no Centro de Artes e Comunicação da UFPE, seguido da vivência experimental que deslocou seus sentidos para pensar a arte, o uso dos materiais, suportes e escalas no curso de extensão oferecido pela Faculdade de Educação Artística da mesma universidade, com o artista e professor José de Barros.
As experimentações oferecidas nessa oficina, somadas ao contato com José de Barros e o grupo de artistas jovens que frequentavam o curso, marcaram o momento em que José Paulo decidiu focar sua vida profissional pela trajetória artística, colocando em um segundo plano sua formação em Arquitetura. Marcante também foi o contato com a Oficina Guaianases de Gravura, as experimentações no Ateliê Aurora, com os artistas Luciano Pinheiro, Cavani Rosas e Petrônio Cunha, a proximidade com livros e revistas de arte e cultura, principalmente os quadrinhos que ressoaram nas maneiras do artista de tratar as representações bidimensionais de um real, seja no desenho, na gravura ou na pintura.
Com base nessas experiências formativas e na perspectiva de produzir interlocução, José Paulo insere-se, ainda nos anos 1980, no campo artístico, participando de exposições individuais e coletivas. Nesse aspecto, destaca-se, em 1988, a exposição individual de pintura pelo projeto Arte Nova, no Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco – MAC, em Olinda, e as mostras coletivas, Novos Talentos, na Galeria Metropolitana do Recife, em 1986, e a III Mostra de Gravura de Curitiba, em 1989.
Simultaneamente a esses processos de formação e da participação em exposições individuais e coletivas ocorridas nessa década, laços afetivos, amizades tecidas com outros jovens artistas e a dimensão da ação política potencializaram o artista na organização de coletivos e grupos de artistas, e esses agenciamentos impulsionaram uma nova dinâmica do ambiente das artes plásticas na cidade do Recife. A organização do primeiro ateliê dos jovens estudantes de Arquitetura José Paulo e Maurício Castro, na primeira metade da década de 1980, é emblemática da criação de um coletivo de artistas. Mesmo sem serem ainda reconhecidos como tal, suas relações de amizade potencializaram a invenção de um lugar de experimentação, cujo núcleo formador agregava também os estudantes de medicina Gustavo Couto e Artur Perrusi, situado na Rua Joaquim Nabuco, no bairro das Graças, no Recife — nas dependências do escritório de arquitetura que pertencia ao pai de Maurício Castro —, e, ao mesmo tempo, um ateliê coletivo que marcou a opção de ambos em dar continuidade a uma pesquisa em artes plásticas, cuja maneira de organização passava pelas práticas coletivas.
José Paulo e Maurício Castro, juntamente com outros artistas, fundaram e integraram os movimentos artísticos denominados de Brigada Jarbas Barbosa (1986) e Brigada Henfil (1988), movimentos que articulavam o exercício da pintura em grandes dimensões nos muros disponibilizados por moradores nos arredores da cidade e, certamente, potencializavam o exercício de liberdade de expressão, numa conjuntura política repleta de vícios das práticas da ditadura militar recém-abolida no Brasil – ver fotos. Dessa experiência entre o cruzamento da arte e da política, resultou, entre outras manifestações, a mostra coletiva Brigada Henfil Arte Mural: Exposição de Painéis Coletivos, no MAC, em Olinda, em 1989.
Desse entrecruzamento entre arte e política e, sobremaneira, da necessidade de convivências coletivas, resultante da constatação de que, na cidade do Recife, particularmente no âmbito das artes plásticas, vivia-se uma série de problemas que produziam lacunas, isolando os artistas em ilhas áridas dentro de uma mesma geografia, provocadas pela ausência de uma política cultural que focasse na formação e profissionalização do meio, no fortalecimento dos espaços de exibição da produção contemporânea, dos raros meios de divulgação, difusão e de discussão. Nesse sentido, José Paulo, Maurício Castro, Aurélio Velho, Fernando Augusto e Humberto Araújo fundaram o ateliê coletivo Quarta Zona de Arte (1988–1994), em um sobrado eclético, situado no Bairro do Recife – ver fotos.
O Quarta Zona de Arte materializou-se como resposta dos artistas às ausências sentidas, potencializando a formação do circuito de arte contemporânea na cidade. Assim, configurou-se em um espaço cultural das artes plásticas, de produção, formação, exposição e difusão da arte contemporânea. No Quarta Zona de Arte, o grupo de artistas realizou diversas exposições coletivas que marcaram a trajetória de muitos dos artistas de sua geração e de outras também. Em 1992, ocorreram as mostras coletivas Treze Artistas em Tempo de Cólera e Quarta Dimensão e, em 1993, a exposição Inútil Útil.
Na trajetória de José Paulo, a primeira metade dos anos 1990 foi marcada por ações realizadas no coletivo Quarta Zona de Arte. Temas como contaminação — lido aqui como processos de influência nos trabalhos uns dos outros, causada pelos modos de fazer socializados e pela convivência nos coletivos, principalmente, nas práticas construídas e táticas operadas pelos “quartazonistas” — aparecem como inquietações nesse momento. Ao mesmo tempo, de maneira ambígua, as singularidades e poéticas individuais passam a ser notadas e preservadas pelos artistas do coletivo.
Nesse período, o artista participou de exposições individuais, destas sobressai Pinturas, no Museu do Estado de Pernambuco, na cidade do Recife, em 1990. Data também desse ano sua participação em exposições coletivas: Impressões, no Museu do Estado de Pernambuco, 1990; Impressões Pernambucanas, no Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará, em Fortaleza; e Pintura Emergente Pernambucana, na Galeria Rodrigo de Mello Franco Andrade, no Instituto Brasileiro de Arte e Cultura, no Rio de Janeiro, ambas em 1991. Na França, participou da Exposition D’Art Contemporain Brésilien, Médiathique Jean Cocteau, Massy, em 1992. Também nesse mesmo ano, é contemplado com um prêmio de escultura no 40º Salão de Arte Contemporâneo de Pernambuco, Recife.
Em 1994, integrou as coletivas Ilha Zero – Artistas no Bairro do Recife, Espaço Cultural Bandepe, e a mostra Na Sombra da Jurema-Preta – Arts of the Americas, New Mexico State University/The University of New Mexico, Albuquerque, New Mexico, USA. Em 1995, realiza a mostra individual Recortes, na Fundação Joaquim Nabuco, no Recife. Por fim, essa década foi marcada por deslocamentos geográficos e culturais. O artista expõe, em 1997, no Museu Sursock, em Beirute, no Líbano, Art-Brèsil, e, nesse mesmo ano e em 1999, respectivamente, esteve presente na 2ª e 3ª edição do evento DRAP-ART – Marató de Creació & Reciclatge em, Barcelona – Espanha.
A segunda metade dos anos 1990 abre definitivamente um caminho de experimentação artística significativo para José Paulo, que marcou seu distanciamento mais radical entre a dimensão bidimensional da representação e a tridimensional. Destacam-se as exposições coletivas: Temporal PE, no Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães – Mamam, Recife, em 1998, e Gambiarra – Sistema Móvel de Sensações Rústicas, realizada na Amparo 60 Sessenta Galeria, no Recife, e Galeria Debret, em Paris, França, em 1999.
O exercício vigoroso com outros materiais permitiu ao artista a saída do plano bidimensional para a produção de objetos e a ocupação do espaço. O contato com a artista Christina Machado revelou-se, em sua trajetória, como uma nova trilha de investigação poética, que o levaria a aprofundar sua pesquisa com a argila, desencadeando a produção de uma série de trabalhos que versaram e usaram o barro como possibilidade procedimental, formal e conceitual na produção artística. Essa pesquisa leva José Paulo a experimentar a utilização de outros materiais que dialoguem com a cerâmica, resultando na produção de uma série de estruturas em ferro. Em 2002, realiza mostra intitulada Cerâmica, na Amparo Sessenta Galeria, que sintetizou todos esses anos de trabalho e marca o encerramento de um processo de pesquisa e produção artística com a cerâmica vitrificada.
A curiosidade com a argila e a cerâmica o levou a integrar, juntamente com os artistas Dantas Suassuna, Joelson Gomes, Maurício Silva e Rinaldo Silva e Christina Machado, o grupo Corgo. Em 2002, o grupo realiza a exposição Corgo – Cerâmica Contemporânea de Pernambuco, no Recife, no Observatório Cultural Malakoff. Desse diálogo, o grupo realiza uma pesquisa sobre as diversas territorialidades e possibilidades do uso do barro no universo cultural de Pernambuco, fruto de uma bolsa de pesquisa em que Corgo foi contemplado no 46º Salão de Artes Plásticas de Pernambuco, em 2003/2004, resultando em uma mostra coletiva no Museu de Arte Contemporânea – MAC, em Olinda.
A primeira década dos anos 2000 foram anos marcados pela possibilidade e emergência de articulação e mobilização do meio artístico local, favorecidos por uma conjuntura política que recolocava temas como redemocratização da cultura e da arte. Nesse sentido, José Paulo, com Maurício Castro, Rinaldo Silva, Fernando Augusto e Fernando Duarte, articulou, em 2002, uma ação para as artes visuais que envolvia incentivo à produção de artista, debates, exposições, oficinas, festas, etc., denominada Semana de Artes Visuais – SPA das Artes, tendo sido José Paulo coordenador das edições 2002/2003/2004/2005. Nessa mesma época, foi convidado a integrar o Conselho Municipal de Cultura da Cidade do Recife.
Nesse período, expõe em mostras coletivas importantes em várias cidades brasileiras: em 2000, Artes Plásticas, Ateliê Submarino, no Recife; em 2001, Construção de uma Linguagem – Cerâmica Brasileira, Centro Brasileiro Britânico, em São Paulo; Casa Coisa, Ateliê Submarino, no Recife; e, em 2004, Tudo é Brasil, Paço Imperial e Itaú Cultural, no Rio de Janeiro e em São Paulo.
É nesse período que a forma de se relacionar com o fazer artístico e a pesquisa com matéria barro se alteram significativamente, resultando numa maneira diferenciada e complexa de tratar/conviver/relacionar com a produção artística, o espaço e os materiais. O grande formato surgiu, e a relação com a espacialidade assume um papel importante e determinante na realização de seus trabalhos. Nesse sentido, o espaço passa a ser integrado e integrante de suas obras, não mais tratadas como objetos a ser vistos, mas como “peças” em grandes formatos a dialogarem com os espaços ocupados. Em 2002, o artista apresenta trabalhos de uma pesquisa artística intitulada Repetir, Repetir, Repetir, primeiramente acolhida pela Amparo Sessenta Galeria, no Recife, e, em 2005, no Museu de Arte Contemporânea de Niterói – MAC. Nesse momento, o trato com a cerâmica amplia-se adquirindo aspectos extremamente conceituais e as escolhas temáticas assumem dimensões simbólicas.
O mesmo diálogo conceitual dessa pesquisa reverbera na obra Quimera, primeiramente exposta no Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães – Mamam, Recife, em 2003. A força conceitual dessa obra, que revela a matéria — barro — na sua forma mais ordinária, como terra, ancora-se em outras geografias, em 2004 na Trienal Poli-Grafica de San Juan, Porto Rico, e, em 2007, Quimera é exposta na Bienal de Valencia, e Encuentro entre dos Mares – Otras Contemporaneidades Problemáticas, na Espanha.
Nesses últimos anos, a produção do artista aprofunda questões sentidas na vida cotidiana, questões que adquirem dimensões universais, como identidades, existências compartilhadas, ética na arte, ciência e política, preconceitos e desigualdades sociais e humanas. O tema da memória, das passagens temporais, recorrentemente toca e perpassa suas obras de maneira muito sutil, pois o artista trata essas questões por meio de situações formais.
De lá para cá, José Paulo esteve presente em mostras individuais, destacando-se: em 2006, Un Viaje Sin Final, Galeria do TrenLigero, Guadalajara, México; em 2009, Retratos e Autorretratos, Amparo Sessenta Galeria, Recife; Para Nunca Mais me Esquecer, Pinacoteca Universitária, Maceió. E algumas coletivas em âmbito nacional e internacional: em 2005, 1, 2, 3 Talvez 4, Centro Cultural Borges, Buenos Aires, Argentina; em 2008, Ano 1 – Coletiva, Anita Schwartz Galeria, Rio de Janeiro e na Décima Bienal de Havana, como artista convidado, Havana, Cuba; em 2009, Linha Orgânica, Amparo Sessenta Galeria, Recife; e, em 2010, Tripé | Escrita, Sesc Pompeia, São Paulo. Em 2011 e 2012, retoma o percurso da série Para Nunca Mais me Esquecer e cria novas poéticas que se somaram aos trabalhos revelados em 2009 e, realizando exposição individual no Centro Cultural dos Correios, no Recife, e no Paço Imperial, no Rio de Janeiro.
Em 2011, no Centro Cultural dos Correios de Salvador, na Bahia, o artista realiza a mostra Retratos e Autorretratos, que atualiza suas pesquisas. Dos objetos e esculturas que permeiam sua poética, o desenho, a fotografia e o vídeo são linguagens que se complementam e respondem o percurso criativo do artista. A mostra estimula reflexões sobre os temas das identidades na contemporaneidade, da representação no âmbito da arte e da história da arte.
José Paulo, em sua trajetória, participou como artista educador de 1989 a 1991 quando ministrou oficinas de Desenho e Pintura no Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco, MAC, Olinda. Em 2001, realiza workshop de escultura — com artistas de Moçambique, Cabo Verde, Portugal e Brasil — Escola de Belas Artes da Universidade do Porto, Portugal. E participou de várias edições do projeto Faço Arte com quem Sabe, dedicado à formação cultural e artística de jovens no Recife.

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