Walter Goldfarb | Midrash Centro Cultural

Um rosto alusivo à figura materna é esboçado na lona crua, ao lado de uma mulher e um jovem (apropriado da pintura de Rembrandt) transformados em imagens rendilhadas que remetem a uma certa melancolia. “A menina, a chuva de amoras e outras h(H)istórias” – pintura que dá título à exposição e que levou um ano para ser produzida – homenageia as filhas (Lia e Manuela) e a mãe do artista, Judith Goldfarb, sobrevivente do Holocausto, nascida na Lituânia e transportada aos nove anos de idade com toda a família para o campo de concentração de Stutthof.

As amoras – construídas com botões de galalite vintage sobre um fundo pictórico impressionista, que evoca Monet – aparecem quase despercebidas, como chagas que brotam da epiderme sangrada da figura materna. Um suposto jardim desencarnado que desabrocha em meio à devastação, preso à fibra dos bordados, trazendo à superfície a vibração de um crepúsculo esmaecido e remoto.

Ao formar uma imagem concreta de sua mitologia pessoal e uma ordem constitutiva de sua realidade, Walter Goldfarb nos transmite um fervilhar de imagens em narrativa figurada, que vasculham as profundezas de seu inconsciente. Ele nos confronta com uma familiaridade nada confortável, que traz a turbulência do seu mundo pessoal.

Essas temáticas vieram à tona a partir de interesses específicos que o artista já manifestava em sua pintura e que se apresentam como uma extensão natural de sua atuação, complementando e rebatendo as inquietações geradas no embate cotidiano com a tela. Seu trabalho carrega alguns fundamentos da historiografia judaica num diálogo intermitente com o cristianismo, e sua atuação circunscreve-se na escritura hebraica e na transmissão da história de seus pais.

Com curadoria de Vanda Klabin, a exposição que seguirá em cartaz até 30 de setembro apresenta 24 obras de diferentes fases, entre pinturas, esculturas, assemblages, serigrafias e uma instalação, que revelam um diálogo constante com a literatura, a música, o teatro e a pintura da Renascença ao Modernismo.

A produção do artista carioca é marcada pelas telas de grandes dimensões e pelas técnicas incomuns. Suas pinturas são construídas a partir de lavagens e raspagens químicas de centenas de bastões de carvão e densas camadas de laca aplicadas na tela através de seringas. As tintas são produzidas no ateliê e diversas técnicas de bordado fazem parte do exercício laborioso de Goldfarb. O repertório de materiais vai desde fragmentos de lápide a miniaturas em ferro de confinadores de gado provenientes de circuitos de trens elétricos.

“A pintura de Walter Goldfarb transformou-se em um campo fértil de pesquisa e inovações, ao instrumentalizar o discurso religioso e os heróis míticos do legado da cultura semita, singularizando as suas experiências biográficas e espaços pessoais transpostos para infinitas estruturas e métricas visuais. Ao adentrar no núcleo de sua poética, percebemos que ela incide no seu caráter híbrido e numa pluralidade de linguagens”, avalia Vanda Klabin.

“A grandeza e profundidade do trabalho de Walter Goldfarb bastaria, mas somos brindados com uma temática que costura passado e futuro, particular e universal, através da peça matriz que dá título e tom à mostra. Essa chuva de vida a lavar e renovar a História de seus horrores, hoje em tempos intolerantes e sectários, retrata em Holocausto e Holograma os potenciais de nossa natureza. Enfim um evento especial, já que nada é mais celebrativo do que o encontro entre qualidade e sentido”, comenta o rabino Nilton Bonder, fundador e diretor do Midrash.

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