Vanderlei Lopes | Galeria Marilia Razuk

A Galeria Marilia Razuk apresenta a exposição Milagre, de Vanderlei Lopes. A terceira individual do artista na galeria, reúne trabalhos recentes e inéditos,
ocupando os dois espaços expositivos. A mostra reúne um corpo de trabalhos que toma o próprio ato de olhar como questão.

Constituída por obras em materiais como vídeo, madeira, fogo, ouro, bronze, pólvora e papel, conjuga diversos procedimentos e temporalidades que se articulam no sentido de refletir sobre a luz e o modo como a obra surge no espaço expositivo.
Objetos ou situações do cotidiano, são transformados, sobretudo a partir de processos de fundição, gravação e queima. Dispostos frente a frente, justapostos ou emparelhados, tais encontros atritam-se, apagam-se ou incendeiam-se reciprocamente. Desejam produzir visibilidade a partir do que não está à vista, por meio de espelhamentos entre matérias e simbologias, duplicações ou inversões.

Milagre – do latim miraculum refere-se ao ver, ao maravilhar-se, a acontecimentos fora do comum e alheios à ciência – toma da tradição da arte, questões ligadas à sua função, seu sentido cultual, bem como questões ligadas às linguagens. Discutem certo sentido religioso, místico, fenômeno recorrente e determinante no processo constante de construção e atualização da realidade.

Trabalho homônimo a exposição, Milagre revela através do ponto de vista de uma lupa de aumento, o raio de sol que a atravessa e queima a imagem de um louva-a-deus, previamente projetada sobre um papel. O mesmo acontece com a imagem do antebraço do artista. A luz inclinada advinda do projetor no teto, ainda que invisível, converte-se na estrutura do outdoor de madeira instalado no chão.

Já a obra Posse (Sapatos), constitui-se em um par de sapatos em bronze, pretos por fora e polidos por dentro. O polimento interno produz uma luminosidade alaranjada, espelhada, “empoçada” em seu interior. O trabalho se refere à imagem de um religioso no muro das lamentações, a indicar ali, a presença de um corpo que em seu movimento procura rearranjarsua fisicalidade diante da parede.

Em Cena (para Glauber) temos as mãos do artista fundidas em bronze; uma segurando uma vela também em bronze, a outra, protegendo do vento uma chama real que tremula e produz luminosidade em seu entorno.

Cântico dos cânticos (Canticum canticorum) é um díptico disposto no espaço de modo espelhado, em paredes opostas, que traz o mesmo texto escrito, repetido sobre dois papeis diferentes; um em positivo, feito com pólvora queimada e o outro em negativo, aplicado com folha de ouro. Trata-se de fragmentos do texto poético da Bíblia, Cântico dos Cânticos, atribuído a Salomão, escrito em linguagem sensual. O poema fala do amor entre o noivo e sua noiva e constitui-se de uma coletânea de hinos nupciais. Como um cântico longínquo, o trabalho deseja produzir ali a união, ou uma corporificação pelo espelhamento entre ambos, que atravessa o visitante em seu fluxo no ambiente expositivo, entre um desenho e outro, entre o outro e o mesmo refletido.

Compartilhar: