Tomie Ohtake | Galeria Nara Roesler RJ

Esta exposição na sede carioca da Galeria Nara Roesler abre mais uma chave para alcançar o pensamento plástico da consagrada artista brasileira, ao trazer uma pesquisa inédita do curador Paulo Miyada. Debruçado no material arquivado por Tomie em sua casa-ateliê, Miyada encontrou cadernos de estudos, praticamente desconhecidos, mesmo no circuito das artes, nos quais pequenas colagens revelam como se iniciava a experimentação pictórica da artista. A mostra – que no Rio recebe nova composição de obras, depois de passar pelo espaço paulistano da galeria em 2017 – ao exibir esses cadernos, constrói uma ponte entre os estudos, treze pinturas e algumas gravuras, das décadas de 1960 a 1980.

Os delicados estudos eram feitos a partir de um procedimento singular: rasgar, cortar e colar recortes de papéis comuns do dia-a-dia, como revistas, convites, jornais, folhetos etc. “Prestar atenção nessa processualidade de Tomie Ohtake é ganhar acesso aos vínculos de sua pintura com o acaso, a gestualidade e a ousadia cromática”, assinala o curador.

Miyada aponta que os diminutos estudos são um recurso consistente e recorrente na obra da artista até meados da década de 1980. “As composições encontradas serviam de roteiro para pinturas e gravuras que experimentavam diferentes escalas e combinações cromáticas. É como se a prancheta com papéis recortados fosse uma zona de mineração de formas e encontros de cores”, observa o curador.

Em suas composições da década de 60, Tomie rasgava os pedaços de papel para criar a gênese de suas pinturas. “As figuras, no caso, assemelham-se a formas geométricas simples, porém de contornos tremeluzentes; guardam a memória de terem sido rasgadas com a ponta dos dedos”, ressalta o curador. Já na década de 1970, quando as pinturas começaram a lidar com formas de contornos mais nítidos, os estudos também se transformaram, pois a artista passou a utilizar a tesoura – e nunca régua e estilete – para cortar os papéis. “Era uma forma de lidar com a instantaneidade do gesto e impregnar todo o processo de pintura com seu equilíbrio entre acaso e controle”.

Segundo o curador, ainda, as texturas da pintura, surpreendentemente, muitas vezes nascem na própria colagem, apropriadas de materiais fotográficos diversos. “A paleta cromática também se expande, num corpo a corpo com o cromatismo de uma época que flertava com a psicodelia”, completa.

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