Thiago Facina | Autour de L’Image

“Imagine carregar fogão, geladeira, sofá, as sacolas de compras, subindo e descendo 138 degraus, 250 degraus, todos os dias?”, provoca Thiago Facina.

Depois de morar por dois anos em diferentes favelas cariocas, o fotógrafo e artista visual percebeu que não fazia mais sentido mirar sua câmera para os signos de miséria e violência, ou reforçar clichês visuais como as pipas na laje, o futebol descalço e os corpos sensuais dos bailes funk. O elemento mais instigante a unir e representar o cotidiano daquele universo estava ali mesmo, sob seus pés.

“As pessoas dão muito pouco valor a uma das principais características de uma favela: a construção civil. A construção das favelas é parte de sua cultura, uma arquitetura popular, com seus saberes, seus materiais e sua negociação sobre o espaço. O Rio de Janeiro é uma cidade de morros e as favelas precisam de muitas escadas. Se cerca de 2 milhões de pessoas moram em favelas no Rio, pelo menos metade delas está em uma favela com algum tipo de inclinação. Quando morei em uma foi que entendi o drama”, conta Thiago, que começou a fotografá-las em 2009 e nunca mais parou.

“Cada favela que visito, me faz mudar o que eu achava da anterior. Às vezes acho uma escada em determinada favela que me faz voltar a outra e refazer as fotos. Essa imersão me ensina todos os dias o valor do processo. Ficar indo e voltando, testando e errando até encontrar uma edição permanente”, explica o artista, que é graduado em Comunicação Social e tem mestrado em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

A série “Escadas” equilibra investigação estética e importância documental. Não à toa, as imagens já foram exibidas na galeria SchauFenster, em Berlim, na Alemanha, em 2015, e agora chega à galeria Autour de L’Image, em Lyon, na França. Finalista do prêmio Conrado Wessel, em 2014, a exposição ainda é inédita no Brasil.

Inspiração em Escher e Piranesi

São registros em preto e branco que flagram os grafismos das escadarias, suas dimensões e a maneira como dialogam com o entorno. Nas imagens de Thiago Facina, as escadas se confundem com as casas, com as ruas, com o lixo, com as pessoas, com as luzes do dia e da noite. São espaços públicos e privados, são símbolos de ascensão social, pertencimento e criatividade.

“As escadas expõem as necessidades e urgências dos moradores. A escada pode estar apoiada numa pedra, em outra escada, ligar apenas duas portas, as possibilidades são muitas. E é daí que vem esse grafismo mágico que lembra o (artista gráfico holandês) Escher, ou o (gravurista italiano) Piranesi. A falta de pudor com conceitos básicos de arquitetura clássica, levou o morador de favela a inventar escadas que se misturam entre si, criando algo fantástico”, comenta Thiago, avançando mais um degrau: o simbolismo psicológico das escadas.

“Quem nunca sonhou com escadas? Tenho pensado muito nisso nas últimas fotos que fiz. Esse é um aspecto que se sobrepõe ao estético e ao sociológico desta série. Somos todos labirintos, um labirinto infinito que rejeita a ficção dos limites, e essa dimensão tem me direcionado muito nas últimas fotos”.

Compartilhar: