Simone Fontana Reis | MuBE

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O Ministério da Cultura e o MuBE convidam para “2o. Círculo de Mulheres” organizado pela artista Simone Fontana Reis. Ele acontece no MuBE – Museu Brasileiro de Escultura e Ecologia, no dia 2 de agosto, às 15h. A artista, que pesquisa florestas e a cultura indígena, explica que o encontro complementa as obras “Nem tudo que reluz é ouro” e “Totem-cupinzeiro”, integrantes da exposição “Amazônia: Os Novos Viajantes”.

Simone convida para uma reflexão sobre o papel da mulher na transformação da paisagem e sua ligação com a preservação do meio ambiente. Para direcionar a conversa, modos de vida de sociedades ancestrais amazônicas estarão em pauta. Participam do debate, o curador do museu, Cauê Alves, a ativista indígena Cristine Takuá, entre outras profissionais:  antropólogas, arquitetas, outras lideranças indígenas, artistas, escritoras, biólogas, curadoras, filosofas, arqueólogas, geólogas, paisagistas e decoradoras. O encontro é aberto ao público de todos os gêneros.

“Nem tudo que reluz é ouro”

A instalação “Nem tudo que reluz é ouro” provoca a reflexão sobre tecnologias e conhecimentos pré-colombianos brasileiros, visando o resgate de valores de etnias amazônicas. A artista incorpora a Terra Preta de Índio e gestos de sua feitura no fazer artístico. Cobre as paredes do espaço expositivo com um composto de Terra Preta e usa réplicas de cacos cerâmicos ancestrais nela encontrados que, transformados em bronze, brilham como o ouro do imaginário europeu.

A obra ressalta, sobretudo, a importância da civilização nativa brasileira e o resgate da nossa cultura. A Terra Preta e os grafismos contidos nos cacos nela encontrados remetem ao papel da mulher na sociedade e à preservação da floresta. A artista defende que a tecnologia da Terra Preta indígena era passada de mãe para filha como uma herança silenciosa – informação encontrada no livro Terra Preta, da cientista política alemã Ute Scheub.

A partir de resíduos, restos de alimentos, plantas, excrementos, carvão, cacos cerâmicos e outros componentes submetidos a uma queima filtrada de baixo teor de oxigênio, talvez sem querer ou talvez conscientemente, estas mulheres faziam com que o carbono e os nutrientes ficassem retidos na mistura ao invés de migrarem para a atmosfera, tornando esta terra fertilíssima.

Depositado em potes cerâmicos, esse preparo, ao ser queimado, exala fumaça e tem o poder de regenerar toda a terra ao redor. Eis um poder feminino: a criação de uma terra que nutre e se multiplica, a invenção de uma tecnologia singular, de temporalidade expandida e plena. Por ser um método de sequestro de carbono, esta tecnologia tem grande potencial para reverter o aquecimento global. Dialoga com a antropologia, a agricultura, a ecologia e a sustentabilidade e com problemas crônicos como a pobreza, a fome e a falta de água. Além de questionar noções arraigadas sobre o que é ser civilizado ou o que significa ser uma sociedade desenvolvida.

Simone pontua que “os invasores europeus falharam em reconhecer a importância da Terra Preta e a enorme realização desses nativos. Sedentos por achar ouro, não enxergaram o verdadeiro Eldorado: um método de cultura e estilo de vida totalmente adaptado ao ambiente, à forma como transformavam a paisagem, enriquecendo o solo, nada desperdiçando, selecionando e domesticando espécies, usando a força das águas e seus ciclos, sem fome e sem doenças – bem diferente da realidade da Europa do século XVI.”

O estudo da Terra Preta comprova que a Floresta Amazônica, que por séculos foi idealizada como uma paisagem intocada, inabitada, verde e virgem, é na verdade um imenso jardim cultivado – uma floresta antropogênica que revela valiosos conhecimentos sobre nossos antepassados, seus hábitos, crenças, comportamentos e organização social. Os ameríndios estavam terra-formando a Amazônia, quando Colombo apareceu e interrompeu o processo. Foi por meio da confecção da Terra Preta e o cultivo sustentável, fruto de observação, insights e experiências dos habitantes nativos, que se tornou possível a vida de uma civilização sofisticada e densa na Amazônia por vários milênios.

“Totem-cupinzeiro”

Ao pesquisar florestas, a artista-exploradora se debate inúmeras vezes com áreas desmatadas. São nessas enormes regiões, tentativas de pasto, que os cupinzeiros (montículos de argila construídos por insetos subterrâneos) aproveitam da dupla negligência humana – o desmatamento e o abandono – para se multiplicarem livremente. Essa modificação na paisagem, feita pelo homem de hoje, reflete nossas ações e visões de mundo, desequilíbrio ambiental e manejo inadequado do solo e da pastagem.

Enquanto povos antigos levantavam totens para venerar elementos naturais ou simbolizar traços de sua identidade, o “Totem-cupinzeiro” é um monumento ao que acreditamos: gado, desmatamento, abandono, incompetência, pouco caso com a natureza.

Ao empilhar um cupinzeiro em cima do outro, a artista nos remete também ao tempo dos sambaquis, onde a paisagem era intencionalmente modificada através de uma acumulação intencional de materiais naturais visando acreção vertical. Aqui, ela o faz para levantar uma crítica à sociedade e seus comportamentos.

Como Land Art, “Totem-cupinzeiro” surge a partir da integração da natureza e da arte, onde a natureza faz parte da criação artística. Perverte os olhos do público e discute a verticalização das cidades unindo uma engenharia humana sofisticada e contemporânea a um sistema orgânico.

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