Santídio Pereira | Galeria Estação

Depois de realizar, em 2016, a primeira individual de Santídio Pereira (Piauí, 1996), a Galeria Estação traz uma nova exposição do artista que, aos 9 anos já brincava de desenhar e pintar nas paredes de madeira da casa precária que dividia com mãe na Favela do 9, na região do Ceasa. O jovem, que chamou a atenção do crítico Rodrigo Naves, curador de sua mostra de estreia, iniciou na gravura aos 14 anos, sob orientação de Fabrício Lopez e Flávio Castellan, quando frequentava o Instituto Acaia.

Agora, sob curadoria de Luisa Duarte, em O olhar da memória, o artista exibe 14 xilogravuras inéditas, realizadas entre 2017 e 2018. Como aponta Duarte, o conjunto de trabalhos reunido apresenta, em sua maior parte, imagens de pássaros da caatinga piauiense, região na qual o artista viveu até os 8 anos de idade. “São impressões de grande escala, nas quais sobreposições de cores e formas nos dão a ver caburés, garrinchas, lambus, juritis – diferentes espécies de aves que povoam sua terra natal. Em meio a essa fauna, outras gravuras, de caráter menos figurativo, aludem, sutilmente, a plantas da paisagem local”.

Além de acessar a memória, a obra de Santídio sugere ao olhar do observador um tempo estendido para que as várias camadas possam se revelar. O artista costuma destacar a diferença entre ver e enxergar. O enxergar que ele evoca vai de encontro ao ver, condição de velocidade imposta ao mundo contemporâneo, exaltada pelo teórico tcheco Villem Flusser com a expressão “estamos surdos oticamente” (citado por Duarte em seu texto sobre a exposição). “Seus trabalhos [de Santídio] solicitam um olhar dilatado e são realizados tendo como motor justamente os registros mnemônicos, tão rarefeitos no presente”, diz a curadora que ressalta, ainda, como a própria gravura, um método milenar de reprodução, traz consigo esse outro tempo, muito distante deste que impera, próprio das imagens digitais reverberadas ao milhões em cada aparelho de celular. “E há ainda, aqui, a imaginação. O artista não faz um documento fiel daquilo que lembra, obviamente. Estamos diante de transfigurações, muito singulares, de uma paisagem vivida”, completa a curadora.

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