Roberta Paiva | Centro Cultural Candido Mendes

A exposição CORPOS INDÓCEIS, na Galeria Candido Mendes de Ipanema, se constitui em duas estações de montagem, estoque e o espaço para receber ganchos, chamados “espinha de peixe” por ambulantes quando estão repletos de balas para a venda em transposte público e nas ruas da cidade.

No teto da galeria, para a obra em progresso, estarão pendurados
ganchos com correntes “no osso” em ponto de espera, que serão montados durante todo o período da exposição, a ponto de virar uma grande escultura em constante mutação (adição e subtração acontecendo ao mesmo tempo), ocupando potencialmente, radicalmente, o espaço da galeria.

O posicionamento das estações de montagem perto do vidro é justamente para se fazer as vezes de vitrine , ficando evidente a subversão da idéia do dentro e fora, do público e privado. Tirar esse fazer da rua e colocar na vitrine no coração de Ipanema.

Cada um dos corpos indóceis é uma individualidade corpórea, pois trará em si as decisões e escolhas de seu montador. A intenção é deixar que o acúmulo de balas e doces, criem uma cromaticidade sem controle direto da artista, mas resultante das escolhas dos montadores que serão os próprios ambulantes. O fato plástico agora pertence a cada montador e a função do objeto muda, pelo menos, parcialmente.

Durante a exposição os visitantes poderão retirar as balas e doces que quiserem. São os embates que acontecem nas ruas, a troca, a
venda, o fiado, inseridos nas relações que esses objetos irão propor. Ao final da exposição, na “finissage”, o que ficou desses corpos será levado para as ruas e transporte público do Rio de Janeiro.

Introduzindo no trabalho uma economia de um sistema de trocas, intenciona-se inserir algo com uma carga conceitual mais rica, que aborda essa maneira do brasileiro se virar, além da beleza plástica objeto em si. Cada gancho personaliza uma vida, cada um tem uma presença quase humana, muitas vezes indesejável e indócil.

Ao invés de se apropriar e levar para a galeria o que está
pronto, os ganchos montados destes camelôs, a artista se apropria e leva para a galeria o conhecimento deles. Esses ganchos montados não se tratam só de um objeto escultórico, mas de um objeto que revela uma inteligência de poder criar situações de sobrevivência, de remuneração dentro de uma situação urbana caótica. É a aplicação de uma inteligência plástica adequada a uma realidade socioeconômica e cultural. Algo muito local e inteligente do ponto de vista estrutural e operacional. É o famoso “se vira malandro com inteligência”.
(Texto da artista Roberta Paiva)

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