Renato Larini | Espaço Zebra

A mostra conta com mais de 50 obras em colagens fotográficas, bordados e outras técnicas que usam como principal matéria-prima fotografias antigas de álbuns de famílias das décadas entre 1920 e 1960 coletadas no bairro do Bixiga. Nelas, o artista realiza intervenções: arranca ou inclui personagens, amputa e transplanta novos organismos, costura partes das suas vestimentas e feições, adiciona pedras nos caminhos, amarrações no olhar, cria roteiros, dessacraliza momentos religiosos e uniformes regimentais.

Larini se apropria desse arquivo pré-existente de imagens “descartadas” e dá um novo fôlego à fotografia impressa e revelada, escavando assim um novo discurso. Ao fazer isso, o artista propõe um resgate da fotografia contemporânea como instrumento de ressignificação, se reapropria esteticamente das fotografias e reterritorializa a identidade artística, no conceito de Deleuze.

Na mostra, o artista também subverte o nome da sociedade “Tradição, Família e Propriedade”, fundada durante a ditadura militar no Brasil e que propunha a manutenção do conservadorismo e das tradições católicas, para reconstruir as histórias dos personagens que, obrigados a seguir esses padrões, acabaram silenciados pelos tabus impostos historicamente.

“Não se ensina ninguém a ser autêntico, a ser único, pelo contrário: cobram uma conduta normativa, uma espécie de uniforme, uma postura, uma coreografia falsa do dia dia. E mexendo nas fotos antigas, sobre as camadas de nitrato de prata e celulose, se revela o que se conhece como ‘universo paralelo’: sobre o brilho congelado de olhos acinzentados e pupilas estáticas se esconde um grito de liberdade. É como se elas me falassem: ‘me tirem daqui’”, diz Larini.

O artista então recorta a noiva de uma foto solene de casamento e a recoloca ao lado de outra noiva. Em seu lugar, um noivo é colocado ao lado do esposo. Mulheres que tiveram sua liberdade de expressão tolhida têm as línguas e os olhos bordados em linha vermelha pelo artista, explicitando a violência a que foram submetidas na perda de sua voz e de sua visão de mundo. E assim segue, revelando, com suas intervenções nas imagens, o processo de mutilação social e estreitamento das visões de mundo e conta histórias silenciadas.

Pode-se dizer, nesse contexto, que Larini sofre do que Derrida chamou de “mal de arquivo”: uma busca incessante pelo “não dito” nesse arquivo de fotografias antigas, de memórias apagadas. O arquivo morto passa a ganhar nova vida na mão do artista.

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