Releituras de Alexandre Mury em Vitória

Em 42 autorretratos – três deles trípticos – e um vídeo, artista faz releitura de obras-primas da história da arte

Num primeiro olhar, Alexandre Mury é Mona Lisa, de Leonardo Da Vinci; no instante seguinte é o Abaporu, de Tarsila do Amaral. Mas é também A Duquesa Feia de Quentin Massys, o Adão de Michelangelo, o Lúcifer de Franz Von Stuck, a Big Sue de Lucian Freud… Alexandre Mury torna novo o antigo e faz de seu corpo o principal protagonista de sua obra.

“Fricções Históricas”, mostra do artista que chega ao SESC Glória (Vitória/ES) em 29 de abril  conta com um universo de imagens em grandes formatos que mexem com o imaginário dos visitantes. As novas experiências estéticas que Mury utiliza em seus autorretratos são muito mais do que apropriações históricas; desconstroem a memória de obras clássicas e apresentam um outro olhar sobre vários ícones da arte. “O seu trabalho é feito de um duplo ato criativo, no qual em movimentos simultâneos ele desmente o desaparecimento do original no mesmo instante em que lhe faz substituído pela novidade dos elementos que encena”, afirma o psicanalista Guilherme Gutman, que assina um dos textos do catálogo da mostra.

A exposição, que esteve em cartaz na Caixa Cultural no Rio de Janeiro, chega a Vitória com trabalhos inéditos, entre os quais El Comedor de Sandías, inspirado na obra do mexicano Rufino Tamayo (1899-1991), e Aopkhes, de Jean-Michel Basquiat (1960-1988). Com curadoria de Vanda Klabin e coordenação do marchand Afonso Costa, a força criativa de Alexandre Mury revela a sua própria inquietude: “Não basta ser um, é preciso viver a alteridade”, diz o artista. A curadoria é da consultora na área de arte contemporânea ehistoriadora de arte Vanda Klabin, “nesses exercícios de despojamento ou acúmulo em situações ambíguas, Mury pensa a arte em torno da transformação do nosso olhar, a partir de uma reinterpretação, de releituras e, ao mesmo tempo, é um desafio que parece encenar a sua vida, ao discutir continuamente seus enigmas. Pensar a arte a partir de uma interpretação, agregar novas entidades e significados, decifráveis ou não, isso tudo me faz lembrar a frase de Clarice Lispector: decifra-me mas não me conclua, eu posso te surpreender”.

DO FOTOLOG PARA ACERVOS DE GRANDES COLECIONADORES

Mury conta que tudo começou como uma brincadeira de Internet, no início dos anos 1990. “Eu tinha um canal no Fotolog e postava fotos diferentes porque não queria me mostrar; na verdade queria me esconder, me expressar de modo criativo. E curtia muito: comprava perucas, fazia as roupas, criava os cenários, inventava maquiagem – como mel para simular uma lágrima, por exemplo – e me transformava em vários, num processo de experimentação solitário, na frente de um espelho”, lembra.

Até hoje, Mury trabalha sozinho em sua casa em São Fidélis, no interior do Estado do Rio de Janeiro. “As ideias surgem o tempo todo, até mesmo em sonho, e cada trabalho tem seu próprio tempo. Entre a motivação e a realização podem se passar muitos meses”, diz o artista. A produção de Monalisa, por exemplo, exigiu transformações físicas. Pela primeira vez, o artista mexeu no próprio corpo: tirou a barba, o cabelo e até as sobrancelhas. Tudo documentado em vídeo, que também faz parte da mostra. “É o meu trabalho mais performático”, afirma.

O ingresso de Alexandre Mury no mundo das artes se deu por insistência do marchand Afonso Costa, que no início da década passada tomou conhecimento de seus autorretratos ao visitar um site e fez contato com o artista a fim de representá-lo. Após certa resistÇencia de Mury, que não se considerava um artista, Afonso Costa o convenceu e apresentou uma seleção de fotos a Joaquim Paiva, o maior colecionador privado de fotografia do país. Paiva adquiriu 16 trabalhos. O comprador seguinte foi Gilberto Chateaubriand. Dois meses depois, O MAM-RJ incluiu trabalhos de Mury na mostra “Novas Aquisições 2007/2010”. E Alexandre Mury entrou pela primeira vez em um museu. Como artista!

 

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