Regina Parra | Galeria Milan

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A Galeria Millan apresenta a primeira exposição individual da artista Regina Parra, “Por Que Tremes, Mulher?”, com curadoria de Moacir dos Anjos, a artista reúne nove pinturas, uma série de desenhos, instalações e um vídeo. Os novos trabalhos refletem uma espécie de “arqueologia da violência”. Não a brutalidade que ganha destaque da mídia diariamente, mas aquela que, muitas vezes, está por trás dela: a violência velada nas relações do dia-a-dia. A hostilidade invisível que funciona como uma ferramenta cotidiana para submeter o outro, especialmente quando esse outro está em uma posição mais frágil. E todo tipo de outro – mulher, imigrante, negro, índio – trava uma luta contra sua própria redução a estereótipos: a mulher domesticada, o imigrante servil, a “nega maluca”, o bom selvagem.

Na instalação sonora “Sim, Senhor”, por exemplo, todos os personagens repetem a mesma frase (“- Sim, senhor.”) como uma estratégia de sobrevivência. Ou, nas pinturas a óleo, são reduzidos a estátuas decorativas de fazendas escravagistas de São Paulo, eternamente servis e sorridentes. E abaixam a cabeça no conjunto de desenhos vermelhos de Parra. No olhar da artista, a estratégia de sobrevivência pode ser enxergada como um meio de resistência. As esculturas decorativas blackamoor retratadas em seus óleos sobre papel deixam de ser “enfeites exóticos” para revelar a brutalidade de sua origem. As figuras cabisbaixas representadas ali talvez estejam, enfim, levantando suas cabeças.

Nas pinturas da série que dá nome à mostra, “Por Que Tremes, Mulher?”, os versos do poema “Tragédia no Lar”, de Castro Alves, fazem as vezes de legendas em cenas de florestas primordiais. Nelas, a violência funciona como ponto de intersecção entre natureza e cultura.
Essas mesmas paisagens são o habitat do pássaro Lipaugus vociferans, conhecido como Capitão-do-Mato. A alcunha vem de seu canto estridente, que, no passado, servia para denunciar o movimento de escravos em fuga. Essa espécie de “antifábula” ganha novo
significado no grupo de pinturas “Aquele Que Grita” e também no vídeo “Capitão-do-Mato”, filmado na Amazônia tendo como personagem um exímio imitador de pássaros. E na instalação em neón, a frase “Manter-se Aterrorizada” é, ao mesmo tempo, o avesso e o espelho da
sentença “Tornar-se Terrível”. Um dilema essencialmente contemporâneo, de um tempo em que a violência contra a mulher está em evidência, da reação feroz às ondas de imigração e do aumento da desigualdade. Um tempo onde o outro ainda é perseguido.

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