Porfírio Valladares | Bergamin & Gomide

A galeria Bergamin & Gomide apresenta a exposição (i)móveis, do mineiro Porfírio Valladares. A mostra reúne 17 projetos do arquiteto, confeccionados em madeira pelo marceneiro Zé Dias.

As peças estruturadas artesanalmente são miniaturas de estilos arquitetônicos que criam um duplo sentido: maquete-mobília e maquete-escultura. Por meio desses objetos, Porfírio faz uma analogia das gavetas com as moradias urbanas e a vida nas grandes cidades.

Texturas e tons das estrias da madeira, o corte e o encaixe, os elementos vazados e os acabamentos perfeitos revelam a poética das obras utilitárias, que remetem a prédios anônimos, com arquitetura considerada “comum”.

“Eu sempre gostei de gavetas e acho confortável a sensação de que os objetos que eu gosto estão protegidos do olhar alheio, escondidos nas gavetas.”
Porfírio Valladares

O conceito da mostra está relacionado à inquietação de Porfírio com as moradias das metrópoles. “Esse nome, (i)móveis, me parece provocador, mexe com a ideia de móveis – já que todos eles são gaveteiros em última instância – e também com a de lançamento imobiliário feito por construtoras, que costumam colocar maquetes dos edifícios que pretendem construir em seus estandes de vendas com o objetivo de seduzir eventuais compradores.” O arquiteto explica que há certo desconforto na sua percepção, “essa coisa de ver apartamentos como gavetas, gente guardada e empilhada em apartamentos/gavetas de prédios estranhos, num arranjo que se torna mais bizarro a cada dia, que são as cidades em que vivemos.”

Todos os (i)móveis apresentados são gaveteiros, caixas dentro de caixas, que podem ‘guardar’ coisas de maneira organizada ou não. Essa concepção convida a um questionamento: seriam os apartamentos nichos de guardar pessoas de forma organizada e compacta? O arquiteto vai além e faz uma analogia do verbo com diversas ações: tirar do olhar alheio, esconder, ocultar, proteger, conservar, dispor de maneira organizada, tomar conta, vigiar para impedir de fugir, prender, reservar, conter, abrigar, zelar, defender, velar e cuidar.

“Gavetas servem para tudo isso. Apartamentos também. Mas gavetas me parecem mais adequadas para guardar sonhos, segredos e tesouros como também contas a pagar, botões, listas de compras, cartas de um amor de ontem…”, declara.

Além disso, a exposição chama atenção para a madeira de qualidade e homenageia o trabalho dos marceneiros, cada vez mais raro.  A parceria de mais de 35 anos de Porfírio com Zé Dias resultou nas peças apresentadas em (i)móveis, elaboradas com freijó maciço, lâminas aplicadas sobre painéis de compensado multilaminado, e lâminas de imbuia para fazer as vezes de vidro, todas encaixadas, coladas e envernizadas. Objetos que, além de utilitários, “servem para guardar sonhos e fantasias”, segundo o criador.

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