Pedro Meyer | Galeria do Lago

A relação entre tráfico de escravizados, genealogia familiar e o desenvolvimento urbano carioca é o ponto de partida da exposição “Cidade Perdida”, do artista Pedro Meyer, que será inaugurada na Galeria do Lago (Museu da República), com curadoria de Isabel Sanson Portella. A mostra é composta por cerca de 20 obras, entre pinturas e desenhos que traçam um paralelo entre o campo do Valongo, local de concentração, trânsito e extermínio de escravos negros no Rio de Janeiro, e Treblinka, quarto campo de extermínio nazista. Estes trabalhos foram desenvolvidos a partir de uma pesquisa iniciada na Gamboa, no Rio de Janeiro, onde o artista trabalhou durante seis meses.

“Pedro Meyer explora a abstração dos mapas e os enigmas que eles sugerem. As dúvidas suscitadas geram possibilidades de leituras diversas que vão intermediar temas violentos e sua relação com o espectador. Do genocídio à escravidão, da engenharia da morte em massa ao sagrado, do distante e passado ao próximo e presente, todas as dores e lutas são apresentadas numa visão estrutural, construída. Para descobrir a ‘cidade perdida’ é preciso o distanciamento e o olhar intenso de quem procura a verdade”,  afirma Isabel Sanson Portella.

Uma das referências para o desenvolvimento das obras são mapas. As escolhas dos locais representados nos mapas são determinadas por levantamentos históricos e esses espaços foram ocupados por antepassados. Os mapas procuram ser imagens técnicas, precisas na apresentação geográfica, mas a cartografia atravessa um desenvolvimento que modifica sua configuração ao longo do tempo. Também existem cartografias imaginárias, as tentativas de reconstrução gráfica de arquiteturas perdidas, soterradas e apagadas. Para o artista, essas plantas são apenas hipóteses, conjecturas sobre um passado imaginado.

“Os mapas são ainda uma abstração formal. Desenhar um mapa é frequentemente relacionar as grades das malhas urbanas com a natureza disforme – tipologias abstratas e naturais reunidas em uma visão planar superior, que comprime e sintetiza. Na superfície do mapa verifico o jogo entre organismo e projeto, ocupação e ordem”, analisa Pedro Meyer.

Será que Grandjean formulou projetos urbanos para o Rio? Será que a expansão para oeste foi orientada por um plano neoclassico? Como as elites locais influenciaram a formulação da cidade? Essas perguntas também são levantadas pelo artista em obras que retratam figuras como José Justino Pereira de Faria – armador do tráfico negreiro que operava na foz do Rio Congo -, Felicidade Perpétua de Jesus – herdeira de José Justino e proprietária de parte significativa da Gávea -, Antonio Francisco de Faria – filho de Felicidade Perpétua, artista e pintor – e Augusto Muller – aluno de Debret, autor do retrato mais conhecido de Grandjean.

“Os brasileiros se aproximaram efetivamente do clássico na violência, não na beleza das obras artísticas. O Rio de Janeiro abrigou uma quantidade de escravizados que só encontramos paralelo na Roma Antiga. Abordo a arte como método histórico paradoxal, em imagens que apresentam tempos históricos distintos em associações fantásticas. Porém, as imagens no seu rigor ilógico são precisas em delinear marcas e denunciam feridas efetivas na distopia atual, especulando sobre manifestações trans-históricas”, completa Meyer.

Para o artista, a pintura e o desenho são um jogo aberto – espaços nos quais é possível conversar com a tradição, mas também reinventar o passado e a possibilidade de existência presente. Os signos da arte criam vínculos temporais. A história social pode ser desdobrada com o encontro de outras narrativas, artísticas, pessoais e simbólicas. A semelhança gráfica entre o Valongo e Treblinka, retratados por Meyer, por exemplo, é uma dobra no tempo, a denúncia coincidente de genocídios diferentes. Para ele, não existem coincidências na investigação de um crime, apenas indícios.

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