Paulo von Poser | Verve Galeria

A Verve Galeria inaugura seu calendário expositivo de 2018 com “SÃO PAULO | VON POSER“, do artista plástico paulistano Paulo von Poser e curadoria de Ian Duarte Lucas. Planejada para as comemorações dos 464 anos de São Paulo, a individual contempla nove séries inéditas, perfazendo um total de vinte e seis peças – em técnicas distintas de desenho, acrílica sobre tela, instalação e objetos -, que desvendam a relação do artista com a cidade onde nasceu, onde vive e trabalha, e que representa sua maior inspiração ao longo de seus 35 anos de carreira.

Minha rua em São Paulo é um estranho assombro, sem casas nem vizinhos da frente, nem asfalto tem – a rua é de terra mesmo! Moro e trabalho literalmente no mato, no mais absoluto silêncio da natureza na periferia sul da cidade. Neste desenho me surpreendi com a presença de pessoas e o movimento desta rua deserta de onde saio todos os dias em busca da arte e da vida urbana”. A citação de Paulo von Poser se refere a “minha rua” (desenho em carvão e acrílica sobre tela), trabalho realizado na Riviera Paulista, às margens da Represa de Guarapiranga. “Ao conduzir o expectador por uma São Paulo muito pessoal, o artista aborda um conceito que permeia toda a sua pesquisa: a deriva, procedimento psicogeográfico proposto pelo escritor Guy Debord, representante do movimento situacionista, que tem como objetivo estudar os efeitos do meio urbano nos estados psíquico e emocional das pessoas. Ao registrar seus percursos, o artista se deixa conduzir pelo próprio ambiente urbano para produzir seus trabalhos, outro ponto de contato com os situacionistas, que propunham a abolição da noção de arte enquanto atividade especializada – sua superação viria pela transformação ininterrupta do meio urbano”, comenta Ian Duarte Lucas, curador da mostra.

Tempo livre” é um desdobramento desta pesquisa, resultado de um projeto inicialmente apresentado em 2016 na “Convocatória do Mobiliário Brasileiro” no MASP – Museu de Arte de São Paulo. Proposta de redes em nylon desenhadas e impressas em edições numeradas, o trabalho nada mais é que uma rede de descanso, carregada de referências poéticas: da instalação “Riposatevi”, projeto de Lucio Costa para a Trienal de Milão de 1964, ao conceito de lazer-prazer proposto em “Crelazer”, texto de Hélio Oiticica publicado em 1969. “A rede enquanto ocupação de um lugar não-específico aparece como elemento simbólico da própria deriva, na proposição de outro tempo de observação da cidade, plataforma máxima para o exercício da liberdade proposto pelos situacionistas” completa o curador.

A mostra continua com “#escolaitinerante“, um caderno de desenho Moleskine A3 que acompanhou o artista em trajetos na cidade e em viagens com estudantes – importante aspecto da trajetória e do processo criativo do artista. Já em “#desenhoderiva“, trabalho em grafite, nanquim e lápis de cor sobre caderneta “Butterfly” Moleskine, registra o percurso a partir do bairro onde mora até o centro de São Paulo. Em suas palavras: “Meu atelier é a cidade: desenhar e andar simultaneamente é possível? Sim, o desenho é puro movimento e não tem limites para sua urgência de ação e velocidade“.

Em “cidade leiga“, Paulo von Poser exibe 12 pequenos oratórios, caixas de madeira e vidro que podem ser manipuladas pelos visitantes, combinadas com objetos variados. Para esta série, foram escolhidos 12 lugares da cidade para serem retratados no formato de cartão postal, na posição vertical. “SÃO PAULO | VON POSER” ainda apresenta uma série de desenhos sobre livros de história de cidade, montados em estojos de madeira e vidro, denominados “8 livros/mestres/mapas“. Sobre o trabalho, o artista comenta: “Em 1978, descobri São Paulo e sua história como estudante de Arquitetura na FAU-USP. Tive grandes mestras e professores de História da Cidade e da Arte. Estes oito livros desenhados são dedicados ao ‘gozo do conhecimento’, este contentamento do encontro entre professor, o estudante e a cidade“.

Já na série “projeções (subterrâneas)“, uma instalação com projetor de slides exibe imagens feitas entre os anos de 1970 e 1990: “Ao rever estes slides, me chamou atenção o som do projetor Kodak Ektagraphic AF, e seu funcionamento automático com temporizador, e o cheiro da máquina em ação“.

Por fim, em “vistas privadas” (desenho sobre papel, técnica mista), paisagens urbanas, como o bairro do Glicério, o Parque Dom Pedro e a Igreja da Boa Morte, são recriadas com os traços de Paulo von Poser. Na obra intitulada “vistas públicas“, são apresentadas cenas da cidade elaboradas com grafite e guache sobre papel. “A exposição toma ainda uma dimensão urbana literal, na medida que propõe atividades pela cidade ao longo de seus dois meses de duração. A obra “tempo livre” percorrerá espaços importantes de São Paulo para o artista, e será completada em aulas de desenho abertas ao público, simbolizando esta cidade que se constrói a cada dia em suas incontáveis histórias”, conclui o curador.

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