Nada levarei quando morrer, aqueles que me devem cobrarei no inferno | Galpão VB

Runo Lagomarsino, Sem Titulo. Foto: Cortesia do artista

A Associação Cultural Videobrasil e a SP-Arte apresentam “Nada levarei quando morrer, aqueles que me devem cobrarei no inferno”, exposição realizada em parceria entre as duas instituições.

A mostra apresenta trabalhos de Caetano Dias, Claudia Andujar, Miguel Rio Branco, Gisela Motta e Leandro Lima, Rodrigo Bueno, Rodrigo Braga, Runo Lagomarsino e Virginia de Medeiros, como parte da programação da SP-Arte, que acontece entre 6 e 9 de abril no Pavilhão da Bienal.

Para Solange Farkas, diretora do Videobrasil e curadora da exposição ao lado de Gabriel Bogossian, o projeto SP-Arte no Galpão VB consolida a parceria iniciada em 2015, responsável por apresentar no espaço da Associação o site-specific Agridoce, do artista sul-africano Haroon Gunn-Salie. “Agora, ampliamos nossa parceria. O projeto possibilita outros olhares sobre as obras desses artistas, ao mesmo tempo que contribui para a expansão do Festival, inserindo o Galpão VB no roteiro de suas exposições paralelas, com nomes consagrados no circuito das artes”.
Para Fernanda Feitosa, este é um encontro que reverbera os propósitos da SP-Arte em 2017. “Sedimentados como Festival, vamos ocupar ainda mais a cidade com arte nesta edição. Vigorosa parceira, a Associação Cultural Videobrasil – há mais de 30 anos na ativa – é a melhor tradução do que precisamos conhecer da produção contemporânea que dialoga com o vídeo, o que representa bem nosso encontro artístico.”

Refinado observador da cultura de seu tempo, o cineasta italiano Pier Paolo Pasolini buscou articular, em seus filmes e textos, uma crítica às transformações sociais então em curso na Itália e um registro de certas práticas culturais que, segundo ele, estariam desaparecendo. Em O Evangelho Segundo São Mateus (1964), por exemplo, Pasolini filma com não atores, vários deles camponeses do sul da Itália – região historicamente mais pobre do país –, realizando ao mesmo tempo uma espécie de homenagem ao catolicismo popular e um registro da máscara do rosto desse homem comum, marcada pelo trabalho no campo. “São imagens de corpos e práticas culturais dissidentes em relação às então novas formas hegemônicas que se impunham à heterogeneidade das culturas italianas”, explica o cocurador da exposição, Gabriel Bogossian.

A exposição Nada levarei quando morrer, aqueles que me devem cobrarei no inferno toma partido desse pensamento, transportando-o para o contexto brasileiro. Aqui, populações urbanas e povos indígenas seguem sob ameaça, seja de projetos de reforma urbanística que não levam em conta a necessidade de inclusão social, seja por empreendimentos de infraestrutura que inviabilizam modos de vida tradicionais. Nesse universo, obras de Caetano Dias, Miguel Rio Branco e Virgínia de Medeiros, por um lado; e de Claudia Andujar, Gisela Motta e Leandro Lima, Rodrigo Bueno, Rodrigo Braga e Runo Lagomarsino, por outro, aproximam-se na abordagem do transe – espiritual, emocional ou erótico –, do sexo e da morte, a partir de uma perspectiva crítica e heterodoxa. Para Bogossian, “o repertório simbólico, resultado do diálogo proposto por estes artistas e sua relação com práticas religiosas não ocidentais, acaba por configurar um lugar de resistência de modos e formas de vida que permanecem, insistindo em afirmar sua força e, sobretudo, sua diferença”.

Se o pensamento do cineasta italiano sobre um patrimônio cultural que desaparece é o ponto de partida da exposição, seu título – Nada levarei quando morrer, aqueles que me devem cobrarei no inferno, emprestado da obra de Miguel Rio Branco – reforça a ideia de morte, presente também em uma das obras de Claudia Andujar, Casulo humano (rito mortuário). “A morte representada na obra de Claudia está integrada aos ciclos naturais da vida, e não só da vida humana. Talvez seja isso que a gente queira criar no Galpão VB: um lugar multiespécie, onde convivem seres de vários mundos e universos, quase como uma espécie de morada dos espíritos”, finaliza.

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