Multiverso | Oi Futuro Flamengo

Imagine uma escultura robótica que dialoga com pedestres na rua sobre questões filosóficas e sociais, a partir de sua inteligência artificial pautada nas ideias de Platão e Sócrates. Imagine também a cidade como um grande quadro a ser pintado coletivamente, em tempo real, por meio da sobreposição constante de cores e pixels. Ou um aplicativo que envia poesia por mensagem, enquanto os usuários transitam por pontos estratégicos da cidade. São as instalações interativas que integram a primeira edição do Multiverso, festival de arte generativa e creative coding (programação criativa) que vai ocupar o Centro Cultural Oi Futuro e outros espaços públicos do Rio, de 8 de setembro a 27 de outubro.

O Multiverso é um projeto carioca pioneiro, dedicado a um eixo temático da cultura digital ainda pouco explorado no Brasil: a interseção entre arte generativa e creative coding, tipo de programação computacional de cunho mais lúdico e artístico, voltado à criação de softwares criativos e expressivos, e não somente funcionais. Tendo como principais pilares arte, tecnologia e sociedade, o festival pretende debater como os códigos de programação e as novas tecnologias podem ser transformados em arte e soluções criativas, a fim de tornar o espaço público mais funcional e acolhedor. A intenção da iniciativa é promover experiências imersivas focadas em democratizar o acesso e estimular tanto a produção criativa, quanto a pesquisa nesse segmento das artes visuais.

Arte generativa refere-se às obras de arte sintetizadas e construídas a partir de sistemas previamente definidos, sejam eles analógicos ou digitais, e isso inclui, por exemplo, a sofisticada tessitura realizada pelo bicho-da-seda. Os algoritmos de software de computadores, processos químicos, físicos e biológicos (como a fermentação), ou ainda o crochê são outros exemplos. Esse modelo de criação artística tem como suporte um sistema autônomo, que pode determinar de forma independente os resultados do trabalho, sem interferência do artista. No caso, um conjunto de regras processuais é que gerará a obra. A arte generativa costuma servir aos artistas como meio de evitar a intencionalidade. Em alguns casos, o criador humano pode afirmar que o sistema gerador representa a sua própria ideia e, em outros, que o sistema assume o papel de autor. É a cessão do controle parcial ou total do resultado estético para o sistema que o realiza.

A programação contará com intervenções urbanas, performances, instalações interativas, masterclasses, minicursos e oficinas para adultos e crianças, sempre com entrada franca, em locais como Praça Mauá, Arena Dicró, Central do Brasil, Viaduto de Laranjeiras e Imperator. A coordenação geral é da produtora cultural Gisele Andrade e a curadoria é de Igor Abreu. Entre os artistas convidados, estão Alberto Harres, André Anastácio, Caio Chacal, Carlos Oliveira, Gabriela Castro, Harrison Mendonça, Marlus Araújo, Tainá Simões, TechnoLab e Estúdio Imersiva (Tom Huet e Javier Scian). Além da produção individual, os artistas têm colaborações em coletivos diversos e já expuseram no Festival de Cultura Digital (CCBB), na Casa França Brasil, no Circo Digital e no Museu do Amanhã, entre outros locais de referência.

A abertura pública do festival será no dia 8 de setembro (sábado), das 17h às 22h, no Centro Cultural Oi Futuro, e terá bate-papo com o curador e artistas do projeto. Pela primeira vez no Rio, o argentino Jorge Crowe fará nesta mesma noite uma apresentação de Ludotecnia, performance audiovisual levada a vários países, em que brinquedos e dispositivos eletrônicos criam imagem e som, em tempo real. Outro destaque da programação de abertura será o coletivo Kinetic.Lab, que leva um duo de bailarinos a interagir com videoarte, também em tempo real. Após a apresentação, a estrutura de projeção ficará disponível no saguão, para experimentação do público.

No dia 16 de setembro (domingo), haverá um circuito expositivo na Praça Mauá, das 15h às 21h, embalado pelo DJ Bruno Eppinghaus. As instalações interativas, performances e intervenções artísticas presenciais do projeto serão apresentadas de forma interligada. Entre os trabalhos, há escultura luminosa inspirada na lenda do boitatá, pipas paramétricas, jogos ressignificados em praça pública e arte cinética.

Durante a vigência do festival, serão ativadas cinco obras digitais no site do projeto (www.multiverso.cc): as obras Motor, Controle, Bicho, Trançado e PixelBattle terão versões on-line. Além disso, o site contará com experimentos digitais, como códigos interativos.

Central do Brasil terá instalação sonora a partir do tráfego dos usuários

A obra ‘Quanta – Trajeto Orquestrado’, de André Anastácio, Igor Abreu, Alberto Harres, Carlos Oliveira e Vitor Zanon, propõe uma reflexão poética sobre a composição dos corpos em trânsito, através de uma instalação sonora interativa. Ao atravessarem as catracas da Central do Brasil, os usuários do transporte público ativarão um um sistema sonoro pré-programado, que vai gerar uma composição musical. Para tanto, no dia 4 de outubro (quinta-feira), será instalado um dispositivo em 12 catracas que dão acesso às plataformas dos trens da Supervia. À medida em que estas forem acionadas, será composta uma música/narrativa escrita pelo tráfego das pessoas. Nessa composição randômica e infinita, os passageiros tornam-se parte de uma orquestra viva e pulsante.

Encerramento: intervenção urbana no Viaduto de Laranjeiras

No último dia do festival (sábado, 27 de outubro), das 14h às 20h, os artistas vão se unir à comunidade e criar uma intervenção artística para a Praça Carlos Del Prete, sob o Viaduto Engenheiro Noronha, em Laranjeiras. O Colaboratório Multiverso será realizado em parceria com a Ocupação Cultural Viaduto de Laranjeiras, que promove eventos regulares no local desde 2015.

Confira as intervenções do Multiverso:

Trançado

Tainá Simões

Artistas colaboradores: Wendel Anthuny Ribeiro de Amorim, Leandro Belém de Assis

Projeção mapeada sobre uma composição feita em bordado sobre uma tela. A composição dialoga com o histórico e a identidade negra relacionados ao Cais do Valongo.

PixelBattle

Carlos Oliveira

Artistas colaboradores: Chris Lima, Cristian C. Mello

Imagine a cidade como um grande quadro a ser pintado coletivamente, em constante transformação por meio da sobreposição contínua de pixels e cores. A batalha é uma provocação sobre o quanto conseguimos ser colaborativos.

Disponível em www.pixelbattle.com.br.

Vevir

Harrison Mendonça

Vevir é um pequeno ser que habita nas árvores e responde aos sentidos da visão e da audição para demonstrar o algoritmo genético usando holografia e som.

Banco de dados

André Anastácio, Caio Chacal e Carlos Meijueiro

Buscando materializar o invisível por meio de uma escuta que exercita a cidadania, esta obra torna audíveis leituras da cidade por meio da voz e da vivência de moradores de rua da cidade do Rio de Janeiro. As histórias compartilhadas por personagens das ruas serão amplificadas em peças do mobiliário urbano (como, por exemplo, um banco de praça).

Aeroscópio

Gabriela Castro e Marcos Spindola

Muitas relações geométricas presentes em padrões da natureza são analisadas e colocadas em prática nas formas experimentadas neste projeto. As pipas tridimensionais trazem uma visualização inusitada de formas paramétricas para os visitantes, ao mesmo tempo em que jogam com a imprevisibilidade de sua performance no ar, já que também dependem de fatores naturais locais.

Platron

Marlus Araujo e Caio Chacal

Artistas colaboradores: Frado Monteiro, Gabriel Jorge dos Santos, Lala Costa, Joyce Fernandes, Alberto Harres, André Anastácio.

Escultura robótica que dialoga com pedestres na rua sobre questões filosóficas, sociais e cotidianas por meio de sua inteligência artificial, que foi programada a partir do pensamento de grandes pensadores da história da humanidade.

Flipper de Rua

Marlus Araujo e Caio Chacal

Artistas colaboradores: André Anastácio, Diego Leal, Raissa Laban, Alan Fecury, Jonathan Menezes

Flipper de Rua é uma instalação que se baseia nas máquinas de fliperamas para a criação de uma arena de jogos em praça pública. O objetivo é conectar as diferentes gerações, reavivar as memórias dos antigos fãs do gênero arcade, e ao mesmo tempo, proporcionar novas experiências para os jogadores mais novos por meio de uma seleção de jogos independentes que discutem a realidade brasileira e que resgatam a rica estética de jogos eletrônicos clássicos.

Motor

Igor Abreu

Aplicativo que possibilita que poetas convidados associem versos a pontos geolocalizados da cidade. O púbico que instalar o aplicativo poderá revelar os versos escondidos conforme for transitando pela cidade, recebendo-os através de uma notificação.

Controle

Alberto Harres e Companhia Volante

O público é conduzido por uma sequência de experimentações cênicas, explorando o corpo no espaço urbano por meio de dispositivos tecnológicos, seguindo veículos em trânsito na busca das rotas de fuga da sociedade de controle.

Bicho

Igor Abreu

Artistas colaboradores: Tom Huet, Caio Chacal, Tainá Simões

Escultura luminosa criada por eletrônica criativa e inspirada no mito do Boitatá, serpente de fogo do folclore brasileiro. A performance é acompanhada de uma trilha musical e faz a condução do público entre os outros números.

TechnoLab

Tom Huet e TechnoBrass

Formado pelo artista Tom Huet e os integrantes da TechnoBrass, TechnoLab é um laboratório de criação experimental que se caracteriza por atuar na rua ou em espaços inusitados. Interagindo com obras de artes visuais, sopros seguem o beat pulsante de percussões em liberdade total, criando melodias e dinâmicas a partir da interação com o público e o espaço alcançável.

Texto do curador

Na arte pré-colombiana, nos românticos europeus, nos grafites de rua, nos modernistas de 22, ou nos desenhistas de cordel, a técnica artística está aliada à capacidade imaterial da sensibilidade humana. A técnica em si não diz nada, é criatura escrava da intenção humana. O estudo da alquimia antiga e engenharia química contemporânea resultaram em fabricação de tintas que, ao longo da história, ornaram produtos, decoraram paredes e também criaram ‘Guernica’. Técnicas de perfuração criaram escadas e bancadas de mármore, assim como as obras de Rodin. A escrita pôde gerar incontáveis memorandos oficiais e incontáveis poesias.

O Multiverso é o conjunto hipotético de universos possíveis. É um espaço onde novas técnicas de produção são sequestradas da engenharia contemporânea para serem utilizadas junto a técnicas artísticas antigas na produção de novos artefatos. Códigos de algoritmos, circuitos eletrônicos e telas compostas por milhares de pixels se juntam a tintas, telas de tecido, esculturas, linhas, origamis, versos, música e teatro.

Fazemos um convite à visibilidade de um movimento de criação de algoritmos expressivos e não apenas funcionais – o creative coding (programação criativa) – e ao estudo da arte generativa, processo no qual o artista se torna um construtor de sistemas autônomos capazes de gerar elementos estéticos, em parte previsíveis, em parte imprevisíveis. (Igor Abreu)

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