Microhistórias Diárias

Shirley Paes Leme apresenta sua individual “Microhistórias Diárias“. Escultora, gravadora, desenhista e professora, ela ocupa as duas salas da Galeria com uma instalação, desenhos, vídeos e objetos.

Shirley Paes Leme apresenta, na filial paulistana da galeria gaúcha Bolsa de Arte, a individual “Microhistórias Diárias“. Escultora, gravadora, desenhista e professora, ela ocupa as duas salas da Galeria com uma instalação, desenhos, vídeos e objetos. A curadoria é de Ricardo Rezende, atual curador do Museu Bispo do Rosário, no Rio de Janeiro.

A artista apresenta uma instalação composta por palavras e objetos em bronze polido, vídeos e desenhos utilizando luz e som que enfatizam repetição e singularidade, banalidade e preciosidade, familiaridade e estranheza. A mostra abre no dia 30 de agosto, sábado, e fica em cartaz até 11 de outubro.

Inutensílios como matéria de arte
Na primeira sala, a instalação intitulada Duração dos Dias traz mais de cem objetos fundidos em bronze, produzidos a partir dos resíduos da queima de velas. Os objetos de múltiplos formatos e desenhos trazem em si e ao mesmo tempo a luz que outrora produziram e a que dissipam por meio do brilho do material de que são feitos, despertando memórias da luz que já se esvaiu. Nas paredes laterais, serão montadas frases de poemas de Manuel de Barros e Clarice Lispector, cujas palavras são fundidas em bronze e parecem derreter em face de uma fonte de calor.
Luz, palavra, acúmulo e repetição são elementos recorrentes nas instalações da artista desde os anos 80.

“A vela é um objeto interessante. Para cumprir sua função ela precisa ser acesa e alimentar a chama. Enquanto produz luz, também se destrói irremediavelmente”, diz a artista que vê nos resíduos das velas a produção de diferentes objetos a partir de um mesmo ponto de partida. Nesse raciocínio, repetição e singularidade, banalidade e preciosidade, familiaridade e estranheza, atuam juntos nesses resíduos das velas originais.

A visão de todos os resíduos das velas dispostas na mesa também traz a poesia sobre o cotidiano e convida para um olhar menos anestesiado sobre as atividades diárias. “A vela é um objeto ordinário, doméstico, comum, produzido para ser queimado. No entanto, a repetição seriada e ritmada de uma ação do cotidiano não significa a reprodução seriada de uma mesma experiência. A experiência é singular a cada vez que ocorre. Nossos atos corriqueiros são providos de sensibilidade e de poesia. Esses pequenos acontecimentos do cotidiano, no seu deslocamento, possibilitam um estranhamento ou agregam nova experiência àquilo que nos é familiar”, afirma Paes Leme.

Fogo, fumaça, gravetos, picumãs, cuspe de cupins, pólen de flores, nódoa de plantas, fungo de frutas e resíduos de comida já foram material para a poética da artista, muitos deles elementos ligados à memória de sua infância. Utiliza ela também, desde os anos 80, vídeos, leds, som de telefonia celular e metal e outros materiais em suas instalações. Boa parte dos trabalhos enfatiza o pequeno gesto, o volátil, o efêmero. Em “Microhistórias Diárias“, mais uma vez Shirley se debruça sobre esse tempo em fuga e a vivência ordinária cotidiana em busca de um instante único pleno de experiência e poesia.

Finalmente, na sala seguinte, “Luz Viva Luz”, dois vídeos se contrapõem e dialogam com objetos, expostos nas paredes, que utilizam luz, som e dispositivos tecnológicos. Segundo a artista, a motivação para essa sala vem do viver cotidiano atual, que se apoia nas informações, principalmente visuais e sonoras, produzidas a partir de dentro do universo tecnológico, que permeia todos os nossos atos cotidianos. “Esse universo apossou-se de nossos dias e de nossas horas. Fomos gradativamente levados ao convívio com tais fontes virtuais de informação. Por estes canais passa hoje nossa percepção e interação com o mundo. Nossa percepção da passagem do tempo, e da duração dos dias, foi profunda e inapelavelmente alterada”, explica.

Sobre a artista
Shirley Paes Leme nasceu em 1955 em Cachoeira Dourada, GO. Realiza instalação, vídeo, escultura, desenho. Entre 1975 e 1978 frequentou o curso de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde estudou com Amilcar de Castro (1920-2002).

Em 1979 começou a lecionar na graduação da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), no curso de Artes Plásticas.·.
Sua primeira exposição individual aconteceu em Brasília, em 1981. Em 1983 a artista recebeu uma bolsa de estudos da Fullbright Foundation e mudou-se para os Estados Unidos, onde cursou seu mestrado e, em 1986, em Berkeley, seu doutorado, além de frequentar o San Francisco Art Institute e a Universidade de Berkeley, ambas na Califórnia.

De volta ao Brasil, lecionou na UFU de 1989 a 2003 e também na Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo, no curso de Graduação e Mestrado de 1997 a 2013. Em 1999 participou do programa de artista residente na Kunsthaus Bethanien, em Berlim.
Em 2012, Shirley fez uma imersão na obra Água Viva, de Clarice Lispector, em exposição homônima apresentada no Museu Vale (Vitória – ES), que mostrava duas grandes instalações relacionadas com a abundância e a falta de água, além de realizar desenhos feitos com água dos mangues locais utilizando linhas que se entrelaçavam com um emaranhado de palavras e frases extraídas do livro que dava nome à mostra.

Sobre o curador:
Ricardo Resende e curador do Museu Bispo do Rosário, Rio de Janeiro, cargo que assumiu em julho de 2014 após quatro anos como diretor geral do Centro Cultural São Paulo (CCSP).

Mestre em História da Arte pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, Resende atuou como curador no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP) e no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), foi diretor do centro de Artes Visuais da Funarte e diretor geral do Centro Dragão do Mar, em Fortaleza.

Trabalhou também com o Projeto Leonilson, que colocou a produção do artista brasileiro em destaque em museus como o MoMA, de Nova York , e a Tate Modern, de Londres, e fez a curadoria da mostra “Sob o Peso dos Meus Amores”, retrospectiva do artista exibida no Itaú Cultural (2011).

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