Maria Laet | Galeria Marília Razuk

Suave, silenciosa e pendular. Sem origem ou destino, como um corpo que existe por si só, a obra de Maria Laet reverbera o essencialismo da matéria. De forma quase que instintiva, a artista se atém aos detalhes que passam despercebidos por olhares apressados e constrói intervenções poéticas, nas quais reflete o tempo e questiona, sutilmente, limites. Esta é a linha que conduz Poro, individual que Laet, artista também convidada para a 33ª Bienal de São Paulo. A mostra fica em cartaz entre 25 de agosto e 20 de outubro, nas salas 1 e 2 da Galeria Marília Razuk.

Com curadoria assinada por Bernardo José de Souza, a exposição reúne 11 trabalhos desenvolvidos em suportes diversos: são vídeos, fotografias, monotipias, objetos e uma instalação. Com eles, a artista propõe ao espectador uma pausa no tempo para se despir da necessidade habitual e, muitas vezes, cartesiana, pelo controle.

Maria Laet age sem pressa, seu tempo é outro, atravessa o homem e a natureza de maneira tão fluida quanto uma névoa. A partir da dialética sobre o tempo, em uma ação quase que banal, Laet costura o solo da terra do Parque Lage. Trata-se da série de fotografias Terra (Parque Lage), de 2015, no qual ela se debruça sobre o chão e o alinhava, calmamente, criando uma espécie de veia entre duas árvores.

“A obra de Maria Laet situa-se em um tempo que é compartilhado e promove um eterno retorno à própria artista, mas não sem antes passar pela natureza, pelos homens, por todxs nós”, diz o curador.

O trabalho de Laet tem, por vezes, características acidentais, de imprevisibilidade. Os elementos nem sempre são controláveis, como em Sopro, série de 2008. Frente a uma pilha de folhas de papel, duas pessoas, uma de cada lado. Cai uma gota de tinta e elas se revezam para soprar. O pigmento é absorvido pelas camadas de papel e o gesto forma diversos desenhos que, pouco a pouco, vão sumindo. O ato alude ao caráter fugaz do tempo, como se a duração do desenho pudesse ser a mesma daquele encontro.

Em uma sala escura, a instalação Sem título, da série Propagação (2014). Seu chão é tomado por centenas de bolas de metal cromado, semelhantes às usadas pela medicina tradicional chinesa. No interior de cada uma delas, um pequeno guizo. O espectador é então convidado a caminhar pela sala, adentrando-se em uma atmosfera onde o tempo é outro. O espaço é marcado ao ritmo do movimento: a cada passo, um suave tilintar.

Na obra de Maria existem apenas o branco, o preto e todas as variações possíveis do cinza. A artista abdicou da cor. Em dado momento, o caráter acidente ressurge na realização de monotipias de Dobra, série de 2015.  A imprevisibilidade do desenho se dá como reação ao processo criativo da artista.

“Há algo de intangível em sua ação silenciosa, fantasmática, litúrgica, eu diria – uma presença e um protagonismo que nos transpõem a outro plano, senão austero, milenar, esotérico, místico. É naquilo que respira, dorme, hiberna – para depois projetar-se na matéria – que existe a obra de Maria Laet”, conclui José de Souza.

 

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