Marcos Amaro | Biblioteca Mário de Andrade

Marcos Amaro passou por uma gestação, seguida de um silêncio tão grande escutando os murmúrios de seus pensamentos que deu à luz a Partenogênese. A série inédita de desenhos produzida durante um período que esteve longe do Brasil será exposta na Biblioteca Mário de Andrade, a partir de 01 de maio. Bem como em Macunaíma, quando Mário de Andrade, em 1928, buscava sintetizar o caráter brasileiro do ponto de vista cultural, político e social, o artista paulistano mostra sua essência por meio do suporte que lhe é mais íntimo. Com curadoria de Ana Carolina Ralston, a mostra reúne 15 desenhos que protagonizam as memórias do artista, narradas desde o início da concepção até o ato de dar à luz um ser.

A história do herói sem nenhum caráter, Macunaíma, tornou-se um dos mais importantes livros brasileiros no contexto em que o modernismo buscava desvendar uma verdadeira identidade brasileira – livre de referências eurocêntricas. A curadora da mostra sugere que o fundo mato-virgem – onde a índia tapamunhas deu à luz Macunaíma – é onde Marcos Amaro renasce nostalgicamente. “Quando estou fora, consigo me distanciar melhor das influências externas – tudo fica mais seco, árido e, consequentemente, mais prolífico dentro de mim”, explica Marcos Amaro.

Gerar, nascer e renascer. Os desenhos do artista dispõem-se na Sala Oval da Biblioteca Mário de Andrade em torno do ser partenogênico, materializado em uma serra de fita. A apropriação do objeto usado há dezenas de anos para cortar tecidos é o vínculo direto ao universo materno de Amaro – sua mãe, estilista, sempre fez da produção de vestimentas uma forma de alinhavar a relação com o filho.

A série revela o olhar do artista para o antes e a força da criação. “Na partenogênese, o embrião se desenvolve sem a fecundação. Apenas espécies que não dependem do sexo oposto conseguem chegar a tal intimidade consigo mesmas a ponto de gerar uma vida dessa forma única”, pontua a curadora. É o que Marcos Amaro faz por meio do desenho, o gênero mais íntimo e livre em sua produção multidisciplinar, capaz de transportar o público para dentro de seu universo.

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