Marcia de Moraes | Luciana Caravello Arte Contemporânea

Marcia de Moraes, O banquete

A paulista Marcia de Moraes faz sua estreia no Rio em dose dupla na Luciana Caravello Arte Contemporânea: abre a exposição “Banquete” e lança o livro “Marcia de Moraes”, com um recorte de sua obra em textos de Paulo Myiada e Camila Belchior, editado pela Cobogó.

Marcia usa lápis grafite e lápis de cor em seus trabalhos, mas é no espaço branco, vazio, não preenchido pela cor, que as formas aparecem. São folhas secas, gargantas, pelos, unhas, pedras, ossos, cacos de vidro, piscinas, bolhas, entre outras coisas. “Quando todos esses elementos estão aglomerados, o desenho se torna uma grande insinuação de um organismo vivo constituído de infinitas partes que não são a representação narrativa de objetos específicos, mas a transposição para o papel desses fragmentos visuais que tenho acumulado há anos”, explica a artista.

Na exposição da Luciana Caravello, ela apresenta sete obras. A que dá o título – Banquete – é o maior trabalho: um políptico de quatro partes que é mesmo um banquete: nele há uma série de referências figurativas como alcachofras, frutas, seios, unhas, ossos. Mas as referências não são óbvias; são transfiguradas e se tornam algo quase abstrato quando estão juntas no desenho. Tudo junto, acaba gerando um desenho que é um banquete visual, mais do que um banquete para o paladar. Mas para a artista, todos esses prazeres se misturam. Olfato, paladar, visual, tato.

Há ainda dois desenhos e quatro colagens. Os desenhos de Marcia são feitos de aglomerados de formas e, como têm grandes dimensões, há muitos elementos desenhados em cada trabalho, mas as formas não são literais. “Estou montando um vocabulário desde que comecei a usar grafite e lápis de cor. E ele não acaba nunca; aumenta e se transforma de um trabalho para outro, pois vou descartando algumas formas antigas e inserindo outras novas. Assim, o desenvolvimento desse léxico se dá em espiral, não é linear”.

Marcia conta que, ao fazer um desenho, vira constantemente a posição dos papéis, seja de cabeça para baixo ou de lado, para tentar ver novas formas. E ela se surpreende ao perceber imagens que não veria naturalmente. Ela acha importante fugir do vício de sempre usar certas formas no desenho. “Me interessa aquilo que eu não faria num primeiro impulso. Costumo dizer que me interesso por aquilo que está deslocado de sentido ou de lugar. Como se fosse um ato falho do cotidiano. Quero aquilo que não é fixo, é fluido e, de certa forma, descabelado, diz”.

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