Manu Maltez | Galeria São Paulo Flutuante

A Galeria São Paulo flutuante traz a rara oportunidade de se conhecer um recorte substantivo da produção de desenhos e gravuras de Manu Maltez, artista que transita nos territórios da música, das artes plásticas e da literatura. O projeto recente O Rabequeiro Maneta e a Fúria da Natureza, composto de um disco-livro e filme de animação, que também será projetado na mostra, cristaliza a sua face multidisciplinar, em que três linguagens emanam da mesma explosão poética.

Admirador de Goya, especialmente da obra O sono da razão produz monstros, da série de gravuras Os Caprichos, Maltez tem o desenho como ato primordial, uma forma de pensar que antecede as palavras. “Quando desenho construo fábulas incontornáveis, por serem inevitáveis para mim, por não terem contornos nítidos e pela variedade e complexidade de assuntos que surgem de uma voz ancestral, as palavras veem depois”, diz o artista. Em um trecho do texto de Rafael Vogt Maia Rosa especial para exposição, o crítico aponta que “a fábula é inequívoca na produção de Manu Maltez, mostra o pacto com a selvageria, decide invocar a garra, no lugar da asa quebrada, acolhendo uma animalidade que se converte em talento puro, capaz de consumar os desejos de pertencimento tanto à tradição como ao folclore”.

A mostra reúne cerca de 70 obras, gravuras e desenhos que afirmam uma singular narrativa pictórica. Entre as séries estão Urubus são Anjos, onde conspiram corpos e espíritos; Carregadores de piano, que aludem a situações existenciais,  Meter os pés pelas mãos, em que imagens perscrutam o obscurantismo quase medieval que assombra o mundo, Desequilibristas, referente à publicação ganhadora do Prêmio FNLIJ de Melhor Livro para Jovens (2014), Rabequeiro Maneta e a Fúria da Natureza, seleção de desenhos produzidos para a animação, e Fábulas incontáveis, que dá nome à exposição, com os trabalhos: O Macaco Azul Mas Nem TantoDialética para um vaso sanitário; Os Olhos Falsos da Natureza; Alegre De Tanto Medo; A Origem da Maldade; Paleolírico; A máscara Pássara. Completam a mostra seis livros de autoria do artista –  textos e desenhos –, um dos quais ganhador do Prêmio Jabuti.

Para Maia Rosa a obra de Maltez dialoga com a figuração de Goeldi especialmente, mas também de Marcello Grassmann, em uma gestualidade estridente que, por vezes, se encontra em Ivan Serpa. “Ali, no lugar de uma apropriação paródica do elemento rural, algo cuja boa intenção não pode ser questionada, essa incorporação se dá numa clave satírica que, no campo da música brasileira, o aproxima de Arrigo Barnabé e aqueles que trouxeram a oralidade para o espectro técnico com dicção mais berrante, muito contrastante com a fluidez tímida e granulação aquarelada da bossa nova, que entoaram uma natureza e urbanidade mais dócil”.

Segundo o crítico, ainda, as experiências de Maltez com a animação provocam uma simultaneidade em que tudo se potencializa na relação mágica entre o natural obscuro e a técnica luminosa que faz vibrar as linhas como feixes. “Não é demais lembrar de William Kentridge, artista que mostrou uma possibilidade para além das prescrições mais acadêmicas que vieram a separar as especialidades como uma iniciativa mais importante do que qualquer traço de personalidade. E de contemporâneos de Manu, como Nuno Ramos e Fabricio Lopez, e outros poucos que ousaram penetrar no veio e deixar sangrar a fúria de nossa natureza”, completa.

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