Luiz Martins | Verve Galeria

A Verve Galeria exibe “Silêncio Negro”, do artista visual Luiz Martins, com curadoria de Ian Duarte Lucas. Em sua segunda individual na galeria, o artista apresenta 14 obras – pinturas, desenhos, e uma instalação – abordando temas recorrentes em sua pesquisa, ligada às suas origens e a construção de sua linguagem.

Nascido na pequena cidade de Machacalis, interior de Minas Gerais, uma parte da família de Luiz Martins é afrodescendente, e outra pertencente à tribo indígena dos maxakali. Autodidata, teve contato com pinturas rupestres de sua região desde pequeno. Aos 17 anos, o artista se muda para São Paulo, onde passa a viver a dura realidade da periferia, “passando pelos percalços e os inúmeros mecanismos de exclusão das populações marginalizadas, esse lugar de esquecimento em que tantos acessos são negados”, como observa o curador. Vestígios dessa trajetória podem ser visualizados no silêncio das formas, nas trocas figuradas deste contínuo processo de silenciamento, resgate de uma história ainda tão presente em seu cotidiano.

O trabalho de Luiz Martins recorre a elementos gráficos, sobrepostos a páginas escritas em diversos meios – como folhas de dicionário, bíblias ou tabloides – cânones que carregam, em diferentes tempos, o discurso dominante e normativo do homem branco europeu, nos dizeres do curador: “palavras que por tantas vezes se transformam em instrumentos de violência literal e simbólica”. Os materiais, texturas e superfícies que fazem parte do universo do artista carregam todo este simbolismo.

“Silêncio Negro” entra em cartaz num período em que importantes instituições, em todo mundo, buscam reparar a histórica exclusão das minorias do circuito de arte. Acerca disso, o curador acrescenta: “Nesta mostra, é colocado em xeque o lugar da arte política apenas enquanto arte figurativa, apontando o lugar da abstração como de igual importância neste debate”. Segundo o artista, “esta série levanta questões para um aspecto tido como superado na história e na arte brasileira: o negro, o periférico, o índio, que aqui se apresenta de maneira a se colocar a relação do artista com a sociedade, o objeto arte com o espaço, e ainda, como a obra se manifesta e se torna representativa desse encontro, muitas vezes atravessado pela realidade social e política do Brasil. […] Há muitas maneiras de narrar à história daqueles milhões de homens e mulheres africanos que a brutalidade do escravismo arrebatou. No caso desta nova série, o conceito vem embarcado pelo silêncio enquanto matéria”.

Para esta última série, Luiz Martins trabalha suas formas não só sobre páginas de dicionários, acrescentando sua releitura a cadernos de viagem de Debret e Rugendas, típicos registros históricos que categorizavam e atribuíam características e funções às diferentes raças. Desta forma, faz referência a processos persistentes na estruturação da sociedade, e ainda uma crítica sutil a um mercado que até hoje premia e destaca estereótipos políticos e culturais. “Antes de mais nada, é o lugar do corpo e a ancestralidade deste corpo – que neste caso nenhuma figuração poderia representar em seu todo – que interessa ao artista, contundente expressão de sua complexa e fascinante história de vida”, conclui Ian Duarte Lucas.

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