Luis Humberto | Museu Nacional da República

Um dos principais nomes do fotojornalismo brasileiro, professor que formou e inspirou várias gerações de fotógrafos e fotojornalistas de Brasília e do País, cofundador da Universidade de Brasília (UnB) e criador do Instituto de Artes da mesma instituição, Luis Humberto inaugura a mostra “A reforma do olhar possível”. De sua mais recente produção, as 45 obras que compõem a exposição fazem parte da série fotográfica homônima foram realizadas pelo artista a partir do olhar de uma pessoa com limitações físicas para se locomover e dificuldades para segurar objetos. A curadoria e a edição são do próprio fotógrafo, que contou a assistência curatorial de Rinaldo Morelli e Usha Velasco e a expografia de Ralph Gehre. A mostra fica em exibição na Sala 2, Piso Térreo do Museu Nacional da República.

Aos 84 anos, o espírito investigativo segue intocável. O título da série que dá nome à exposição reflete a inquietação e o inconformismo. “A reforma do olhar possível” traz em si uma “dupla militância do possível”, tanto do olhar quanto da reforma. “É algo sempre penoso. O olhar também é submetido aos novos limites. Agora, meu olhar passa a navegar em outros mares”, afirma.

Crítico de sua obra, não se permite fazer concessões ao seu próprio trabalho. Luis Humberto é o curador e o editor das imagens que compõem a mostra. “A responsabilidade pela obra é do autor”, afirma. E ressalta que o fotógrafo está sempre procurando descobrir o desconhecido, resgatar uma importância não percebida e doar aos outros o resultado de suas investigações. Para além de fotografias meramente informativas, a obra de Luis Humberto traz para o público um olhar crítico e ao mesmo tempo lírico.  A cor e a luz são amplamente usadas como elementos da linguagem fotográfica.  A mostra reúne as fotos que começou a realizar há pouco tempo, resultado de um processo de mudança de paradigma do fotógrafo, sua relação com a câmera e o espaço.  As 45 imagens apresentadas na mostra surgem das limitações impostas ao fotógrafo devido à obrigação de usar cadeira de rodas. No entanto, não poder andar e ter que ficar boa parte do tempo sentado não lhe impedem de olhar o universo ao seu redor e observar e retratar a luz que entra pela janela ou os objetos que parecem banais.

Temas como a vida no espaço limitado entre quatro paredes  –  física ou metaforicamente –, o cotidiano familiar e a proximidade do objeto fotografado a uma distância relativamente curta são uma recorrência na produção de Luis Humberto: “Trabalho com a minha própria herança”, diz ao citar a série “Paisagens domésticas”, onde retratou os filhos pequenos, o dia a dia da casa, entre outras cenas domésticas. “Fiz essa série que durou uma década, de 1974 a 1984. Há certas áreas vedadas que dizem não podem ser feitas, porque alguém já fez. Fiz por mim e fui descobrindo a casa”, afirma.  O fotógrafo fez o mesmo com a série “Cerrado”. Ao longo de 13 anos produziu intensamente fotografias de flores, árvores, arbustos, porque diziam que o Cerrado era “feio, baixinho, retorcido que não era possível encontrar beleza nele”. Essas fotos faziam parte de sua pesquisa de doutorado em Arquitetura e Paisagismo interrompido em 1964 com a ditadura militar. Ainda assim, seguiu com o trabalho, mesmo que nunca o tenha apresentado.

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