Lucas Dupin | Galeria Lume

Tomar o prosaico como régua para a aferição daquilo que nos rodeia. Partir do banal para tratar de temas universais e enxergar o mundo pelos olhos daqueles que andam pelas ruas das cidades. É esse o pano de fundo de Rés do chão, mostra que o artista multidisciplinar Lucas Dupin apresenta na Galeria Lume.

Trata-se da primeira exposição individual realizada em uma galeria paulistana pelo mineiro, vencedor de importantes prêmios de arte contemporânea, promovidos por instituições como o Instituto Tomie Ohtake, a Fundação Nacional das Artes (Funarte) e a Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP). Em São Paulo, Dupin apresenta um panorama de sua produção mais recente. São oito trabalhos, entre vídeo, instalação e séries de aquarelas e fotografias, todos concebidos pelo artista entre 2010 e 2018, a maior parte deles ainda inédito.

“Quando comecei a pensar nessa exposição, notei que muitos dos trabalhos selecionados têm em comum a perspectiva daquilo que nos é corriqueiro, do que está ao rés do chão e que, muitas vezes, nos passa despercebido. A meu ver, toda a exposição chama a atenção justamente porque parte da observação de elementos banais para apontar em direção a uma singularidade até então não imaginada”, afirma Dupin.

A instalação Jardins suspensos, por exemplo, traz uma série de fragmentos de calçadas de pedras portuguesas, algumas delas imbuídas de vida, pois carregam minúsculos jardins nos vãos entre uma pedra e outra. Na galeria, elas deixam o chão, se espalham pelo ar e, penduradas por imperceptíveis fios de nylon, tomam parte do espaço expositivo.

As pedras de formato retangular, tão comuns aos passeios de países lusófonos, também aparecem na série Equivalências – registros fotográficos de uma performance realizada por Dupin em 2017, enquanto participava de uma residência artística da FAAP, instalada no centro de São Paulo.

Em um dos trabalhos, o artista retira uma única pedra da calçada e a cobre com uma folha de ouro, para então devolvê-la ao seu lugar de origem. Em outra obra, substitui um pequeno fragmento por um pedaço de carne do mesmo tamanho. “Esta série é sem dúvida um forte comentário ao nosso passado colonial e à memória implícita que essas calçadas carregam”, pontua.

Dupin também apresenta ao público um vídeo inédito, o registro audiovisual de uma performance executada no último ano. Nele, o artista se posiciona em um canto da Praça do Patriarca, no centro de São Paulo, e pouco a pouco, passa a alimentar os pombos que estão por ali. Quando rodeado por dezenas deles, estoura uma bomba e os assiste partir em polvorosa para, dali algum tempo, retornarem a ele em busca de mais alimento. Tão político quanto poético, o vídeo faz referência àqueles que vivem à margem do poder público e da sociedade, nos calçadões do centro daquela que é tida como a maior e mais importante cidade da América Latina.

No mais antigo dos trabalhos apresentados, Bitucas, o artista traz dezenas de aquarelas onde reproduz, de modo realista, inúmeras bitucas de cigarro encontradas pelos caminhos por onde passa. Em um jogo simbólico, o artista faz uso de uma das mais complexas e refinadas técnicas da pintura para retratar algo um tanto ordinário, descartes encontrados a cada esquina.

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