KUNSTHALLE São Paulo convida o artista Guillaume Pilet

Guillaume Pilet é um artista eclético e curioso, cujas obras escapam estilos e referências, variando entre esculturas, cerâmicas, pinturas, performances, instalações, vídeos, e pinturas de parede. Através de suas obras polimórficas, que à primeira vista podem ser tomadas como ingênuas ou até mesmo feitas por um artista amador, Pilet questiona criticamente o status da obra de arte e o cinismo existente no mundo da arte.

Muito influenciado pela ideia de Gilles Deleuze sobre “devir minoritário”, as obras de Pilet parecem que foram criadas para e no lugar de alguém de fora do mundo da arte, mas que ao mesmo tempo, aludem à história da arte como algo que assombra a humanidade, “uma história de fantasmas para adultos”, como colocado pelo historiador de arte alemão Aby Warburg. Fascinado pelas coisas que para ele são esteticamente estranhas e o kitsch, o artista incorpora em sua prática artística elementos da cultura popular, formas infantis, pintura corporal, representações de objetos do cotidiano, figuras emblemáticas, crítica institucional, Pop Art, o primitivismo e sua influência nos movimentos modernistas, etc.

Para a exposição “Síntese humanista”, Guillaume Pilet propõe um canibalismo em sentido inverso: se – como descrito no Manifesto Antropofágico do artista modernista Oswald de Andrade – os artistas antropofágicos “comiam” as influências européias, digeriam-nas, e regurgitavam coisas novas, Guillaume Pilet agora “come” a arquitetura modernista, o movimento de arte concreta, a exuberante natureza verde, os estudos etnográficos dos povos indígenas, e livremente cria sua própria arte a partir deles.

A exposição é criada a partir da idéia de reunir diferentes conhecimentos e sintetizá-los em vários elementos. A pintura de parede, que se refere à arquitetura modernista, cria uma ilusão de ótica da existência de outros espaços nas paredes do espaço expositivo. Esses espaços ilusórios têm suas paredes pintadas com um padrão desenvolvido pelo artista em continuação àqueles realizados em telas de diferentes formatos e que aludem à Op Art. Mas agora esse padrão é subvertido por Pilet em um desenho feito à mão livre referindo-se ao psicodelismo da Tropicália.

Esse mesmo padrão aparece na pintura corporal – realizada em colaboração com um performer, referindo-se à prática indígena de pintura corporal. Na região do Xingu, cada povo indígena tem seus próprios padrões, que são abstrações de padrões de animais, tais como a pele da onça-pintada ou os desenhos do casco da tartaruga. Ao usar esses padrões na prática da pintura corporal, os indígenas representam esses animais em rituais cosmológicos. Pilet fotografou e filmou o performer interagindo com as linhas estruturais da pintura da parede, antes de adicionar o padrão pscicodélico. O vídeo da performance é apresentado na exposição e as fotos foram adicionadas à publicação que o artista produziu exclusivamente para a exposição. A publicação inclui também parte do herbário que o artista criou com plantas por ele coletatadas durante seus primeiros dias em São Paulo. O herbário reflete sobre a tradição humanista de coletar e catalogar plantas, a fim de produzir conhecimento e mapear o ambiente onde os seres humanos vivem.

Por fim, o artista apresenta um barril de lata vermelho, um ready-made que ele usa como um plinto para o espaço, representando Lina Bo Bardi, a arquiteta italiana que muito bem empregou os conceitos modernistas em seus projetos no Brasil. A interação social possibilitada pela arquitetura modernista brasileira é um aspecto muito humanista ao qual Guillaume Pilet presta homenagem. O ready-made refere-se ao icónico edifício do Centro Cultural Sesc Pompéia e seus elementos vermelhos que outrora fora uma fábrica de barris, antes de ser reformado pela arquiteta.

Curadoria de Marina Coelho.

Sobre o artista

Guillaume Pilet (*1984, Payerne, Suíça). Vive e trabalha em Lausanne. Estudou artes visuais na ECAL – école cantonale d’art de Lausanne, na Suíça. Entre as exposições em que apresentou seus trabalhos, estão: a individual Learning to Love, Kunsthaus Glarus (2014); Fire it up: Ceramic as Material in contemporary sculpture, Dienstgebäude (2013), Zurique; a individual Biologie de l’Art, Forma (2013), Lausanne; Hotel Abisso, Centre d’art contemporain (2013), Genebra; La Jeunesse est un art, Kunsthaus Argauer (2012), Aarau; a individual Learning from aping: le cabinet préliminaire, La Placette (2011), Lausanne; a individual L’art de la Fugue, Rotwand Galerie (2011), Zurique; a individual A decade of Art, Galerie Valérie Bach (2010), Bruxelas; Swiss Art Award 2010, Basileia. Entre os prêmios que recebeu estão: Kiefer Hablitzel (2013); Swiss Art Award 2010; Cahiers d’artiste Pro Helvetia 2010; and Swiss Art Award 2009.

Sobre Natureza e Conhecimento

O projeto Natureza e Conhecimento consiste em uma série de três exposições de artistas estrangeiros na KUNSTHALLE São Paulo, cujas pesquisas abordam a ciência ou aproximam-se de experimentos científicos, ligando assim, a arte à natureza, ao conhecimento humano científico e também a conhecimentos ocultos e exotéricos.

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