Júlio Villani | Galeria Estação

“Do bestiário de Artur Pereira aos bichos de Lygia Clark, da Baleia de Graciliano Ramos ao Burrinho Pedrês de Guimarães Rosa, não faltam animais prodigiosos na arte brasileira. Cumpre agora integrar as criaturas de Júlio Villani a essa fauna – tomando-se, porém, o cuidado de preservar sua singularidade no seio dessa família imaginária”, escreve Samuel Titan no texto sobre esta exposição na Galeria Estação, cujo elenco primordial é formado pelos grandes mestres da arte de raiz, oriundos de todos os cantos do Brasil.

Por um fio, que acontece simultaneamente a outra individual de Júlio Villani em São Paulo, Alinhavai, na Galeria Raquel Arnaud, reúne um conjunto de esculturas, fundamentalmente híbrido, que se dá em várias camadas. “São objets trouvés, à Duchamp, mas são também um exercício risonho dos dons de metamorfose que são próprios da arte”, afirma Titan. Segundo ele, são herdeiras de certo surrealismo parisiense, mas parecem nos remeter às memórias sensoriais de um menino do interior, que observa de sua própria perspectiva os objetos da casa, da cozinha, da fazenda.

Em vez de formão e cinzel, o artista se utiliza de alicate, martelinho, arame, solda discreta, a fim de dobrar, prender, amarrar e pendurar. “…muitas delas são móbiles à maneira de Calder – quer dizer, são e não são, pois continuamos a ver as partes heteróclitas que as constituem, como num desenho de coelho-e-lebre. E nisso, aliás, são brasileiríssimas, filhas do jeitinho e da gambiarra elevados à condição de arte, dotadas daquela graça etérea e desajeitada que as petecas têm”. Titan ressalta que as obras geradas de algumas operações manuais simples provocam longa reflexão plástica, “o mergulho na memória infantil e ainda a malícia sutil que se diverte com a alteração das proporções ou com o desvio das funções e dos usos originais dos objetos que servem de matéria-prima”.

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