Jordi Burch | Janaína Torres Galeria

O artista Jordi Burch fotografa. Seus registros não apenas refletem o esgotamento da estética realista, pautada pela ideia de representação, mas revelam a importância do processo e do gesto na produção de imagens. Em Furo, exposição individual que apresenta entre 16 de agosto e 2 de outubro na Janaina Torres Galeria, o português se aventura em um percurso investigativo pela linguagem fotográfica.

Com curadoria de Marta Mestre, a mostra reúne 14 fotografias e 1 vídeo, resultado de uma pesquisa ainda em curso do artista. Nela, ele explora as múltiplas possibilidades da prática fotográfica, voltando-se, muitas vezes, para o processo do fotografar e para a própria matéria, sem ater-se, necessariamente, a fins e objetos específicos.

“É de ensaio que esta exposição trata. Composta por trabalhos recentes, aposta em uma pequena unidade de sentidos sobre o carácter latente da matéria fotográfica – essencialmente luz e tempo –, e convida o espectador a refazer mentalmente os nexos deste vocabulário provisório, entre índice e paisagem”, pontua a curadora.

Na primeira série, por exemplo, um pequeno círculo se desloca, quase indistinto, sobre um fundo claro. Concebida a partir do processo de quimigrama, no qual a imagem eÌ criada no ato da revelação, a sequência de cinco fotografias surge não pelo funcionar de uma câmera, mas por uma intervenção manual – tal como num desenho –, no próprio suporte do papel fotográfico.

Em um novo conjunto, tem-se, à primeira vista, uma paisagem marcada pela justaposição de duas figuras cônicas: as fotografias colocadas à frente do interlocutor se assemelham a vultos de montanhas. Também produzidas pela técnica do quimigrama, as imagens são transpostas pelo artista a uma página de caderno, em um claro questionamento acerca dos limites da fotografia.

O projeto procura colocar em evidência uma prática intransitiva do fotografar — um ato que se basta e volta-se ao suporte fotográfico em si, investigando as potencialidades dos gestos interventivos sobre a matéria da fotografia. Nesse sentido, o gesto encaixa-se entre o agir e o fazer, entre o espasmo e o cálculo, escancarando aquilo que a linguagem tem de lapso e impreciso: furos.

Em outra obra, a imagem de um quarto. Sobre o chão e a cama, fragmentos do teto. Jordi faz o registro não de um instante único, determinante, mas de uma ação transcorrida. O momento aqui já não importa e a fotografia suporta em si uma história – várias histórias. O que terá ocorrido para que o teto cedesse? Quem estava no cômodo?

Os registros de Burch despertam estranhamento e devaneio, convidando o visitante a deslocamentos vários. É o que ocorre, por exemplo, quando diante de uma imagem negra – negativo de uma foto mal sucedida. Nela, restos de poeira se somam a impressões digitais criadas pela manipulação da própria película, dando origem a um céu noturno, completamente tomado por estrelas.

“A fotografia apresentada nesta mostra aproxima-se do campo da configuração. Não se trata mais de criar representações de objetos externos à linguagem, mas de, a partir da mesma, descobrir imagens que, por vezes inadvertidamente, configuram mundos possíveis”, afirma o próprio artista.

Uma seleção de Furo também será apresentada pela Janaina Torres Galeria na 12ª edição da SP-Arte/Foto. O evento acontece entre os dias 22 e 26 de agosto, no Shopping JK Iguatemi, em São Paulo, reunindo em um único espaço alguns dos principais nomes da fotografia contemporânea.

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