Jaime Prades | Galeria Mezanino

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Para além do movimento

Na série Dentro, Jaime Prades, por meio do uso de grafismos, produz uma pintura dinâmica ao mesmo tempo silenciosa, que vibra ao olhar de modo sutil e que explicita, aqui e ali, a presença da mão na caligrafia das linhas e na aplicação da tinta. Desse modo, ressoa a afirmação histórica de Paul Klee – leitura permanente de Prades – sobre o movimento ser “a base de toda transformação”.

Entretanto, apesar da aparência homogênea se vista à distância, os patterns de Prades estão longe de uma op art porque, mesmo sendo a presença do movimento evidente, eles não se configuram apenas como um jogo perceptivo, mas, ao gosto de Klee, como um elemento de transformação da subjetividade. Todavia, estes trabalhos não dizem respeito a um discurso místico, como aquele associado ao início da arte abstrata, mas afirmam as “energias lineares” presentes na arte gráfica, citadas pelo artista suíço-alemão.

A noção contemporânea de patterns (que pode ser traduzida por “padrões”), como entendida por Frank Stella e presente largamente em sua pintura, era utilizada pelo artista norte-americano para garantir uma objetividade do gesto e se opor àquilo que acreditava ser um dado nocivo da tradição europeia: a valorização da pintura equilibrada, compositiva e bem-acabada.

Embora as atuais pinturas de Prades possam evocar visualmente as de Stella, devido ao grafismo e à planaridade, da mesma maneira que as de Stella, nos anos 1960, eram associadas àquelas de Vasarely, as questões que as movem são absolutamente distintas. Ao contrário da literalidade dos padrões de Stella e do fascínio de Vasarely pelas possibilidades da percepção visual do movimento, Prades está interessado no transe estabelecido pela repetição relativa, à maneira de um mantra. É uma experiência que busca, por meio da continuidade e de um trabalho atento, demorado e paciente, proporcionar uma entrada para a contemplação e que o faz adotando uma forma curvilínea e sensual.

Aliás, esse grafismo, que é e não é grade, aliado às irregularidades da mão e a uma palheta silenciosa, faz vir à mente, em termos conceituais, a produção de Agnes Martin, pintora canadense radicada nos EUA. Embora as telas de Martin sejam elaboradas com tons lavados, com a presença da grade ou de listras – elas também borram os limites entre desenho e pintura –, o efeito sensível desses trabalhos se assemelha àquele das pinturas atuais de Prades realizadas, aliás, sem projeto, iniciadas pelo risco de carvão diretamente sobre a tela (um risco que “se faz fazendo”, diz Prades).

Nesse sentido, Martin escreveu com propriedade sobre a beleza e a arte. Para ela, muitas das respostas emocionais diante da vida não podem ser expressas por meio de palavras. Seríamos surpreendidos por obras que se relacionassem a respostas não-verbais. Desse modo, ela aconselhava que mantivéssemos nossa mente tão vazia e tranquila quanto seus trabalhos para que reconhecêssemos nossos sentimentos diante deles. Essa é a postura indicada para adentrarmos as pinturas da exposição de Prades – é preciso olhar detidamente e respeitar o tempo da sensibilidade para compreendê-las.

As telas de Prades parecem crescer para além do espaço pictórico num movimento manso, cuja geometria sutil, em alguns trabalhos, sugere uma membrana que respira. Ele persegue essa geometria mole como uma resposta feminina àquela geometria rígida, de arestas, “masculina”. Segue uma direção oposta à razão; tem interesse pela linha contínua que quer libertar a subjetividade e redimir o prazer. A espessura das linhas e sua sinuosidade fazem lembrar as marcas de um arado, o objeto que cava para revolver e assim arejar o solo, permitindo que aquilo que está por baixo, dentro, seja exposto à superfície. Da mesma maneira, volta e meia, esses “sulcos” sugerem trançados, remetendo ao mundo do tecer e do fiar, tradicionalmente, como se sabe, associado ao feminino.

Prades adota sobretudo uma palheta surda e, ainda que se trate de uma pintura que frisa sua superfície, ela é, em realidade, composta por veladuras. Também a aparente exatidão gráfica, num olhar mais atento, revela seus detalhes gestuais.

Como se pode notar, o trabalho do artista é repleto dessas ambiguidades: um mundo gráfico que habita a pintura, uma pintura que não demonstra discutir a pintura, mas que é elaborada como tal contendo várias camadas materiais absolutamente sutis, uma geometria que diz das sensações e não visa explorar a relação entre os elementos formais.

A pintura pulsante de Prades nos seduz fazendo nossos olhos vagarem suavemente pelas suas formas, e, como com o canto das sereias – e seus cabelos serpenteados –, devemos nos permitir sermos seduzidos porque não tememos o fundo do mar ao qual certamente seremos levados. Nas palavras de Klee, “Deixe-se tragar por este mar revigorante, por um largo rio ou por encantadores riachos, tais como o da arte gráfica aforística, pluri-ramificada”.

Ana Avelar

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