Iberê Camargo e Francisco Stockinger | Galeria Frente

A Galeria Frente apresenta a exposição de Iberê Camargo e Francisco Stockinger. A mostra, em cartaz do dia 22 de setembro a 27 de outubro, pretende abordar a relação de amizade entre os artistas, além da produção de cada um deles. Iberê, inclusive, chegou a produzir um retrato do amigo em óleo sobre tela e escreveu um texto sobre a relação dos dois.

“Conheci o Xico em 1947, no Rio, no atelier de Bruno Giorgi. Ele se iniciava na escultura. De imediato nos tornamos amigos. Um ideal comum, a arte, nos aproximou para sempre. Via a sua transferência para Porto Alegre, com certo receio. Temia que a província não favorecesse o desenvolvimento de seu talento. Enganei-me.

Foi exatamente no sul, nesta plaga de tradições cruentas que Xico criou seus imortais guerreiros, sempre prontos à luta, armados de escudos e pontudas lanças. Quixotesco, eles existem, heráldico, no intemporal da Arte. E, por certo, combatem em imaginárias refregas-vivências da fantasia do artista. Durante nosso prolongado afastamento, que durou quase trinta anos- ele em Porto Alegre, e eu no Rio – trocamos correspondência, sempre transbordante de humor e afeto. Quando das minhas vindas esporádicas à capital gaúcha, juntos, quixotescamente, nos empenhamos em acirrados debates. Entre muitos, ficou famoso o do Teatro de Equipe, nos idos de sessenta, que cunhou a inexorável expressão – ‘marasmo de Porto Alegre’.

Xico é esse escultor vigoroso que doma o ferro, o lenho e o mármore, com mão de mestre. E é ele também de todos nós, um grande amigo.”

Iberê Camargo

Porto Alegre, 1968

A figura feminina, retratada em “As Magrinhas”, por exemplo, também foi objeto de Stockinger. “As mulheres esculpidas têm certo despojamento no modo como seus corpos são colocados no mundo. Despreocupadas, se sentam ou apoiam em algum ponto, levam os braços à cabeça relaxando-a sobre as mãos. Seus rostos são minimamente definidos pela matéria escultórica, o suficiente para percebermos que elas observam algo. Possivelmente, olhavam o tempo passar enquanto se mantinham perenemente jovens. Tais mulheres não possuem identidade na obra de Stockinger, povoam sua produção como seres quase míticos e atemporais. A idealização da juventude, em especial feminina”, pontua Trujillo.

Para apresentar esses universos convergentes, a Galeria Frente reuniu 128 produções dos artistas, que têm como ponto em comum a temporalidade e obras ‘espessas’ e pouco apaziguadoras, embora Iberê retratasse suas questões internas e Stockinger as questões mundanas e do ser.

“Fragmentos de mundo são apreendidos ou, ainda, disparados, por Francisco Stockinger e Iberê Camargo de modos distintos. Ao se aproximarem, dizem da retenção da memória, seja ela afetiva – como os brinquedos de infância de Iberê – ou corpórea, como os desalinhamentos físicos de um sobrevivente da miséria social, em Stockinger. Uma situação de compressão e dilatamento do tempo”, conclui Maria Beatrice Trujillo.

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