Hélio Oiticica | Galeria Nara Roesler

© Cortesia

Um mergulho na essência coletiva da arte de Hélio Oiticica (1937-1980) é a proposta da exposição Barracão. Reagrupando um conjunto sucinto e potente de trabalhos desenvolvidos pelo artista com alguns de seus parceiros mais próximos, a mostra pretende resgatar o caráter ao mesmo tempo revolucionário e agregador de sua poética.

A partir de meados dos anos 1960, com o desenvolvimento de noções como as de anti-arte e de programa ambiental, Oiticica afasta radicalmente a ideia de arte como objeto de contemplação estética, aprofundando e radicalizando uma revisão crítica dos preceitos tradicionais e defendendo uma forma aberta, coletiva e socialmente transformadora de ação artística. Aposta na experimentação livre, no esfacelamento dos limites tradicionais entre as linguagens, na substituição da noção de espectador pela de participante ativo e na recuperação dos valores de cultura popular em contraposição à “glorificação do que já está fechado”. Oiticica radicaliza o que Mario Pedrosa definiu como “exercício experimental da liberdade” e passa a propor a transformação do ambiente cotidiano dos indivíduos e dos grupos, em escala íntima ou urbana, algo que até hoje mobiliza parcela importante da arte contemporânea e explica sua posição de absoluto destaque na cena artística brasileira.

Estabelece então um vasto e ininterrupto diálogo criativo com diversos interlocutores, dos companheiros do Morro da Mangueira a amigos próximos como Antonio Manuel e Neville d’Almeida, que são também os principais coautores dos trabalhos selecionados para a exposição. Obras como a fotonovela A Arma Fálica (1970) e o parangolé Nirvana (1968), elaborados com Antonio Manuel, e a instalação interativa Cosmococa 2, em homenagem a Yoko Ono, criada em parceria com Neville de Almeida, são resultado desse processo.

“Hélio era uma pessoa maravilhosa e muito generosa”, conta Antonio Manuel ao relembrar as circunstâncias de criação do parangolé Nirvana, uma veste branca, de corte geométrico, que deriva de uma imagem de um menino de Biafra, esquelético, usada por ele em suas Urnas Quentes, trabalho mostrado na manifestação Apocalipopótese (1968), que tinha Oiticica como um de seus organizadores. O próprio conceito do Parangolé é público, grupal. “Tem a ver com fantasia, samba, carnaval, o parangolé sozinho não existe”, explica o curador César Oiticica Filho, sobrinho do artista e responsável pela gestão de sua obra há vinte anos. “Ele tinha esse ideal de produção coletiva, democrática e teve vários parceiros nesse sentido. Tinha esse espírito”, sintetiza Antonio Manuel.

Ganha destaque também na mostra um trabalho inédito, Information (1970/2016), que mescla elementos sonoros, fílmicos e imersivos, criado originalmente em 1970 em parceria com o artista norte-americano Lee Jaffe[1], num momento de grande efervescência e resistência cultural no Brasil. É neste mesmo ano que Oiticica escreve o texto Barracão, que dá título à exposição e no qual elabora conceitualmente sua prática crescente de participação coletiva, de “possibilidade aberta de uma cultura”, em clara referência ao trabalho comunitário nas escolas de samba. Apresentada por Hélio como proposta para sua participação na antológica exposição Information, em 1970, no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), a obra acabou não se concretizando e deu lugar à célebre instalação Nichos. “Este é o desafio, reger uma obra que nunca foi executada”, afirma César. “É uma exposição que traz novas questões inclusive museológicas para a obra dele”, comenta, acrescentando não se lembrar de “nenhuma outra mostra que tenha avançado tanto no pensamento, na pesquisa do Hélio”. “É uma semente. Estamos começando a nos debruçar sobre o Barracão, que foi a própria vida dele”, conclui.

No dia 3 de setembro, às 11h30, César Oiticica Filho, Neville d’Almeida, Lee Jaffe e Paula Braga participam de uma conversa com o público, no espaço da galeria, sobre a exposição e a produção de Hélio Oiticica. Entrada gratuita.

Compartilhar: