Helena Trindade | Paço Imperial

Com curadoria de Glória Ferreira, a exposição “A letra é a traça da letra” apresenta cerca de 45 obras, entre objetos, instalações, fotos, esculturas, vídeos e performance (no dia da abertura) que ocupam as quatro salas do segundo pavimento da instituição. Os trabalhos, a maior parte em grandes dimensões, são inéditos e muitos deste ano.

As obras dialogam com a forte tradição brasileira em Poesia Visual, campo no qual Helena Trindade trabalha desde a década de 90. Na produção da artista, signos visuais e linguísticos se concentram na materialidade da letra, na tensão entre o enunciável e o visível.

“A letra é a traça da letra”, a exposição, também dá nome a uma das instalações, composta pelo trabalho Alfabeto traça – invenção de um alfabeto autorreferente (não corresponde a nenhum outro conhecido) com teclas apagadas de máquinas de escrever –, e por um dicionário etimológico perfurado pela artista, ao modo das traças, com pequenos tipos de máquinas de escrever.

São muitas as letras e os abecedários presentes nas diversas instalações da exposição. Nas paredes o Alfabeto traça é disposto como em um caderno de caligrafia.

Quatro grandes instalações, concebidas como poesias visuais, abordam diferentes aspectos do funcionamento da linguagem, por meio de imagens, letras e sons. Cada uma delas possui elementos que remetem às instalações seguintes. E o público interage com algumas das obras. A instalação (a)MURO – onde está um grande muro construído com estênceis de letras –, por exemplo, trata de engajar sensorialmente o corpo das pessoas na Floresta de casulos, que deve ser atravessada para se ter acesso à sala seguinte. Nesta instalação, as pessoas se encostam nos elementos de papel e linha de encadernação, de formas orgânicas, movimentando-os e, ocasionalmente, alterando essas formas.

A questão do tempo e do corpo também está presente no vídeo D’Écrit x Des Cris (Escritos & gritos), parceria com Ana Kfouri, onde o corpo aparece sempre aos pedaços ou por meio de sombras e de gritos. E também o corpo da artista se presentifica na ação ‘Nada terá tido lugar senão o lugar’, no dia da abertura.

Na instalação seguinte, (A)MOR, há um vídeo-díptico, que consiste em dois vídeos projetados no chão da sala, que colocam em questão momentos diversos do afeto amoroso. Um vídeo é dinâmico e vertiginoso, com música eletrônica. O outro é plácido e suave, com música da Grécia Antiga. Espera-se que as pessoas atravessem o espaço desses vídeos, projetando suas sombras e deixando-se ‘banhar’ pelas imagens.

A instalação Medida de todas as coisas é composta por 20 objetos que remetem também ao corpo e à letra, na forma de utensílios, livros, brinquedos e outras coisas que se transmutam em obras de arte a depender da visada e o desejo do espectador; trabalhos intensos e instigantes que se relacionam entre si pela letra, pela presença e pelo lugar de onde falam ao outro…

 

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