Helena Trindade | Instituto Tomie Ohtake

Como parte de uma preocupação constante com a produção contemporânea, o Instituto Tomie Ohtake traz a exposição A letra é a traça da letra, de Helena Trindade, formada por quatro instalações em grandes dimensões. O conjunto revela a particular potência poética construída pela artista a partir da letra, matéria seminal de sua obra. “A minha maneira, digo que a letra é um pré-texto para um jogo poético”, diz a artista. A exposição, com curadoria de Glória Ferreira, que esteve no Paço Imperial, Rio de Janeiro, de 21 de março a 27 de maio deste ano, evidencia como Trindade desdobra o alfabeto em diferentes narrativas e suportes, estabelecendo um amplo campo de Poesia Visual, traço comum na obra da artista, há mais de vinte anos.

As instalações, compostas por esculturas, vídeos, fotografias, objetos e performance no dia da abertura, reúnem cerca de 40 trabalhos, a maioria de 2018. Em cada instalação há elementos que remetem às demais, reafirmando o interesse da artista em trazer ao seu vocabulário plástico a inesgotável articulação da linguagem escrita. “Romper a forma linear da escrita, tratar a letra como vetor de significados, um contínuo trabalho de rearticulação, próprio ao funcionamento da linguagem, é o que, ao meu ver, Helena Trindade realiza em sua poética”, afirma a curadora.

Em (a)MURO, que abre a exposição, dois muros  são (des)construídos a partir de estênceis de letras. Eles abordam, segundo a artista, aspectos do funcionamento da linguagem e evocam Lacan, que se refere a um “muro de linguagem que se opõe à fala”.

Remetem também ao neologismo lacaniano (a)mur, que conjuga as palavras “amor” e “muro”. Já (A)MOR, que destaca as letras A, M, O, R, relacionando-se, assim, à primeira sala,  aborda diferentes aspectos do afeto amoroso por meio de vídeos (Afastamentos e díptico A-M-O-R, projetado no chão) e de uma escultura (Insular), construída com os recortes retirados do trabalho de outra instalação, A letra é a traça da letra.

MEDIDA DE TODAS AS COISAS reúne 22 objetos que evocam as várias referências que alimentam a obra da artista carioca. Do sofista grego Protágoras – “O homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são” –, passando por Lacan, grande influenciador do pensamento da artista, pelo poeta catalão Joan Brossa, com o Poema a Brossa, por Heidegger, cujo livro A origem da obra de arte é retomado pela artista e impresso de modo a reproduzir a cada folha seu título, por Derrida com Poema a Derrida, até Carvaggio, Lygia Clark, entre outros.

Por sua vez, em A LETRA É A TRAÇA DA LETRA, instalação que dá nome à exposição, encontra-se um dicionário etimológico (origem das palavras), perfurado por Trindade, ao modo das traças, com pequenos tipos de máquina de escrever. Na mesma instalação, inventa o Alfabeto Traça, que não corresponde a nenhum outro conhecido, com teclas de máquinas de escrever. “Existe no movimento que gera a linguagem um trabalho perpétuo de rearticulação que problematiza a questão da origem, uma vez que nesse processo nada se produz que não seja pela transformação”, completa.

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