Fotografias de Beto Figueiroa compõem intervenção urbana no Recife

Festa do Morro deste ano, que começou no último dia 29 de novembro, ?no Recife, conta com a exposição "Morro de Fé". A céu aberto, entre escadarias e ladeiras, a mostra reúne imagens em? grandes proporções, produzidas pelo premiado fotógrafo pernambucano ao longo de uma pesquisa de 14 anos na Festa do Morro.

Desde o último sábado (29), a paisagem do Morro da Conceição, comunidade na Zona Norte do Recife, está diferente. Pensada sob o formato de intervenção urbana e artística, a exposição “Morro de Fé” apresenta uma seleção de imagens captadas na Festa do Morro, que completa 110 anos de história em 2014 e atrai cerca de 800 mil pessoas nos dez dias que antecedem o 8 de dezembro, Dia de Nossa Senhora da Conceição.

Longe de trazer um perfil meramente religioso, o trabalho explora as figuras humanas que frequentam a festa, numa analogia entre a fé e o profano. São romeiros, pedintes, bêbados, pagadores de promessas, vendedores ambulantes, prostitutas. A maior romaria urbana do Nordeste, pelas lentes de Beto, representa as misturas sociais e misticismos de um povo genuinamente brasileiro.

Com a curadoria de Mateus Sá, a exposição é composta por 25 fotografias coloridas e em preto e branco, impressas em grandes formatos, ocupando paredes e telhados com até 14 metros de largura. Durante a noite, as fotos contarão com iluminação instalada pela Emlurb, apoiadora do projeto.

“A exposição não poderia ser em outro lugar”, coloca Figueiroa, reiteirando a necessidade de “devolução” à comunidade em 14 anos consecutivos de captação de imagens. A proposta é provocar, nas fotos, o reconhecimento dos moradores e dos visitantes do Morro. “Me sinto muito honrado e feliz por escolherem minha residência para fazer parte dessa exposição. Para nós, é um presente”, diz o autônomo Harry do Nascimento Silva, 30 anos, um dos moradores que cederam suas casas para receber o “Morro de Fé”.

“Moro há 60 anos no Morro, e nunca ouvi falar de um projeto como esse. A foto que vai ficar na minha casa é uma coisa muito bonita. Sou católica desde que nasci e tenho muita fé em Nossa Senhora da Conceição. Tenho fé primeiro em Deus, depois nela. E acho que essas fotos vão ser uma coisa histórica”, afirma a aposentada Edileuza Belarmina de Barros, 62 anos.

Conhecida na comunidade como Dona Sevi, Severina Paiva de Santana, 79 anos, também oferece apoio à mostra. “Por se tratar do Morro da Conceição, comunidade que se formou com a chegada da imagem da santa em 1904, eu apoio totalmente esta exposição de Beto Figueiroa. É algo que vem para o bem do Morro. Valoriza os moradores, colocando as imagens nas casas. É um belo trabalho de arte, com alta qualidade artística”, comenta a famosa moradora da comunidade, autora de um livro sobre a história do Morro.

Publicação – O projeto “Morro de Fé” resultará, ainda, em um livro composto por 50 fotografias, a ser lançado logo após o Carnaval 2015. O design gráfico da publicação é assinado por Sebba Cavalcante. A mostra é realizada pela empresa Trago Boa Notícia com incentivo do Governo do Estado, por meio Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura. Também conta com o apoio da Prefeitura do Recife e da gráfica Fac Form.

Beto Figueiroa – fotografia além da visão

Beto Figueiroa passou parte da infância na histórica cidade de Goiana, Mata Norte de Pernambuco. Foi criado por uma mulher cega. Mãe Ná, sua avó, morreu em 2009 aos 106 anos e sempre foi uma referência não só na conduta de vida como na arte de enxergar. Para o menino Beto, o sentido da visão jamais foi parte essencial para a alegria. O jeito de ver as coisas se construiu de maneira diferenciada – bem provavelmente pela força dos ensinamentos de Mãe Ná, que jamais o viu, mas o acompanhou de perto, desde o início de sua carreira como fotógrafo.

A afetiva história sobre o olhar especial de Beto Figueiroa, evidente em suas fotos, talvez seja a primeira explicação para o reconhecimento do seu trabalho. Já com larga experiência na cobertura de eventos musicais, atua como fotógrafo oficial do festival MIMO, onde assinou a exposição de 10 anos da mostra em 2013.

Com trabalho reconhecido pelas principais premiações do fotojornalismo nacional, como Vladimir Herzog, Caixa e Ayrton Senna, Beto participou de exposições individuais e coletivas, no Brasil e no exterior, além de inúmeras publicações em livros e revistas. Em 2007, esteve entre os dez brasileiros escolhidos pela Fototeca de Cuba e pelo Instituto de Mídia e Arte – Imea (SP) para representar a fotografia brasileira, sendo o mais jovem da seleção na mostra “Mirame – uma ventana da fotografia brasileña”, em Havana.

Compartilhar: