Finissage | Faça vc mesm_ (um guia de leitura 1/20)

“A exposição coletiva nos dá a oportunidade de fazer com que muitas vozes dialoguem.

Sendo assim, ela é o campo ideal para criar diferentes combinações e alongar os músculos curatoriais.
Há, literalmente, infinitas combinações de perspectivas que podem ser apresentadas numa exposição coletiva.
Pelo fato de essa categoria ser muito flexível – talvez a mais abrangente subcategoria dentro da criação de exposições – seu formato pode desafiar ou até mesmo derrubar modelos historicamente preestabelecidos.
Pode tomar qualquer forma e situar-se em qualquer espaço. Uma exposição coletiva pode reescrever a história ou iniciar um novo diálogo ao simplesmente adotar uma visão abrangente com relação ao grupo de artistas selecionados, ao fazer conexões ou reuniões inesperadas entre artistas, ou ainda, ao exibir a obra de artistas negligenciados ou pouco conhecidos.” Jens Hoffmann

“Isto não é uma obra de arte”

Marcel Broodthaers

Para além de um inevitável legado modernista que pesquisou e aprofundou as fronteiras semânticas e epistêmicas da própria linguagem, a arte contemporânea em seu hibridismo entrópico, promoveu um conjunto de experiências poéticas que tinham por objetivo expandir e potencializar uma ampliação dos limites do campo de atuação da arte.

Obviamente, é impossível desconsiderar os processos de desmaterialização do objeto, da mesma maneira que uma reavaliação das lógicas do site-specific, compreendido então em seu devir econômico, político, social e mercadológico, bem como a presença da potência conceitual que atravessa um conjunto considerável de obras e proposições poéticas. Também não podemos esquecer as experiências corporais, a relação intermitente e imbricada entre obra e espectador, da mesma maneira que alguns eixos temáticos que não haviam até então sido contemplados (as questões de gênero e etnia), bem como os pressupostos de desconstrução potencializados pelo pós-estruturalismo.

Diante de tais mudanças e de sua respectiva velocidade, os espaços culturais precisaram repensar seus projetos expositivos e as formas pelas quais os trabalhos eram expostos, problematizados e aproximados de um público que, paradoxalmente parecia, dependendo do local e da própria instituição, cada vez mais distante. Além dessa questão, a quantidade de obras que questionaram e ainda questionam a lógica expositiva e o espaço museológico tornou-se crescente, evidenciando em alguns momentos a ligeira falência dos processos mais tradicionais de circulação, veiculação e exibição dos trabalhos de arte.

Em resposta a tudo isso, surgem diversas formas de atuação que procuraram encontrar outros caminhos de funcionamento como por exemplo, os coletivos de arte, alguns espaços alternativos, projetos inusitados de exposição e expografia, curadorias feitas por artistas e uma infinidade de propostas. Por certo as próprias instituições também procuraram e eventualmente encontraram novas lógicas de gestão, de exibição e de curadoria. Tais desejos em alguns casos, produziram situações que historicamente tornaram-se fundamentais para o debate como por exemplo: When Attitudes Become Form (1969), Magiciens de la terre (1989), Do it (1993), Documenta X

(1997), A exposição com trabalho de arte (2003) e Exposições Portáteis (2005).

Faça você mesm_ – um guia de leitura, é um projeto de exposição que tem por objetivo discutir tais questões de maneira gráfica e visual. Metodologicamente pedimos que os convidados pensassem em uma exposição / proposta expositiva tendo como único espaço possível uma folha de papel A4. Toda e qualquer informação é possível: texto, imagem, fotografia, poema, desenho, citações, lista de artistas, plantas de arquitetura, desenho expográfico e tudo o que for do interesse do convidado.

Sendo assim, o objetivo geral é fazer da exposição, um espaço de pensamento teórico e prático que se desdobra em outras ideias de exposições, ou pelo menos em outras provocações de exposições que ainda não aconteceram ou talvez jamais venham a acontecer.

_s artistas, crític_s de arte, curadores, pensadores, poetisas/poetas, coreógraf_s, atrizes/atores e quaisquer seres humanos convidados para esse projeto foram escolhidos obviamente, a partir de suas

respectivas trajetórias e das relações de enfrentamento que estabelecem com instituições e/ou com discursos colonizadores e/ou posições de supremacia e/ou com a lógica da tradição e/ou com a ideia de obra de arte e/ou consigo mesmos.

Inicialmente o projeto previa em média 50 convidados, mas ao longo do processo e de um desejo ingênuo e utópico de abarcar um grande número de convidados, capazes de erigir um panorama híbrido e atmosférico, ultrapassamos uma centena de integrantes. Apesar disso, muitas ausências serão sentidas. Então, de antemão, já pedimos desculpas. E sugerimos que o projeto continue sua narrativa épica de acordo com o desejo de cada um.

Há todo o tipo de pessoas aqui. Ou quase. E mesmo sabendo que todo recorte é um corte, nosso limite (físico, espacial, quantitativo, qualitativo, semântico) guarda consigo um segredo: romper pequenas estruturas restritivas que se des-dobram para fora do espaço das páginas, como em um conjunto de devires exógenos que, esperamos, sejam capazes de nos lançar em uma outra esfera de visualidade e potência simbólica.

De qualquer forma, para além de uma exposição e de um projeto curatorial estrito, nosso desejo é fazer com que este evento seja, antes e acima de qualquer coisa, um ato de resistência e paradoxal celebração diante dos tempos de horror que estamos vivendo no Brasil e no mundo. Esse é o ato 1/20. Agora somos efeito desse ato, que se constitui nessa trajetória: um circuito que necessita do outro e assim por diante. Um circuito aberto à experiência-experimental, ao acaso e aos rastros, mesmo que efêmeros. Infinitos gestos em A4, de torção e de oposição.

Exatamente por todas essas razões, o projeto foi proposto inicialmente para A MESA, espaço alternativo que vem construindo uma potente trajetória de investigações poéticas e curatoriais no Morro da Conceição no RJ. Felizmente, também pudemos construir juntos uma forma de exposição com duração mais ampliada e com processos de mediação e alguns quase-cursos, idealizados pela Escola Sem Sítio, uma proposta educativa que aposta na possibilidade de invenção, deambulação e fratura de um sistema tradicional e não menos engessado de ensino e diálogo.

Resta-nos agradecer a tod_s _s envolvid_s da equipe técnica, da mesma forma que tod_s _s convidad_s que aceitaram a empreitada, em virtude de sua urgência e proposta conceitual. E obviamente ao público, que esperamos tomar para si esta exposição, fazendo com que ela reverbere entre os diversos espaços e não-espaços possíveis para que um novo vento entre pelas janelas do corpo nosso (agora já um, múltiplo).

Observações

1 – Esta exposição não é um site-specific em termos tradicionais. Se assim insistirmos que o seja, o será em virtude da im-precisão com que deseja discutir o vento da contemporaneidade.
2 – Os trabalhos serão enviados em .pdf e impressos pela equipe técnica. Após cada exposição, os trabalhos serão destruídos pela curadoria.
3 – A aceitação do convite e da participação nesta exposição implica também na aceitação do projeto e na possível publicação de um catálogo inicialmente em .pdf a ser disponibilizado gratuitamente. Caso posteriormente haja a possibilidade de publicação de um catálogo físico, _s convidad_s serão contatados novamente.
4 – A aceitação do convite e da participação nesta exposição implica na concordância de eventual deslocamento do projeto para outros espaços. Caso surjam possibilidades de financiamento, os valores destinados a cada convidado serão divididos de maneira idêntica. Caso algum(a) convidad _ discorde do referido valor, é só avisar para que a obra seja retirada da respectiva edição do projeto.
5 – Como os trabalhos serão impressos e expostos e como existe a possibilidade de deslocamento do projeto para outros espaços, a curadoria garante que a impressão e exposição máxima dos trabalhos, bem como sua respectiva circulação será de vinte vezes (uma vez para cada local/edição). Lembrando que a cada vez, _s convidad_s serão comunicados por e-mail. Por esta razão, a primeira edição tem uma numeração 1/20.
6 – Os trabalhos não serão vendidos e/ou negociados individualmente por esta curadoria em hipótese alguma. E nem mesmo o .pdf será veiculado em qualquer outra forma que não seja a proposta pela exposição.

Alexandre Sá + André Sheik + Anna Corina + Vitor Ramalho

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