Fernanda Leme | IED Rio

O Istituto Europeo di Design inaugura no próximo dia 29 de julho, às 19h, a exposição “Em que espelho ficou perdida a minha face”, da artista Fernanda Leme. Com curadoria de Marisa Flórido, a artista expõe obras que têm o gênero pictórico do autorretrato no mundo contemporâneo como questão principal: as pinturas “No sofá”, “No tapete”, “Na cama”(2017); o díptico “Autorretrato” (2015) ; e o políptico “Cabeças”.  Como pintar retratos em uma época imersa no fluxo ininterrupto e veloz de imagens? Época em que o fácil de acesso às novas tecnologias portáteis como celulares e máquinas digitais, os novos meios de circulação e exibição, como a internet e as redes sociais, vieram modificar nossas relações com as imagens, em particular as de nossa face e intimidade cotidiana. Como diz Fernanda Leme, “não existe mais investimento de tempo e afeto com o mundo e a vida; as relações, de um modo geral, são hoje como os selfies, rápidas, passageiras e logo descartadas. Minhas pinturas investigam a possibilidade de se encarnar o coletivo em imagens íntimas e pessoais”.

A artista inicia seu processo a partir de imagens que faz com o celular ou de seu arquivo pessoal e as converte em pinturas, eventualmente introduzindo elementos e signos estranhos à cena, confundido e cruzando tempos e memórias. Ao imediato do selfie, a seu rápido consumo e descarte, ela contrapõe a artesania da pintura, com seu tempo lento de execução e recepção.

Cabeças, por exemplo, é uma obra em processo, iniciada em 2014 e sem previsão de finalizar. São (por agora) 54 telas de 30 x 40 cm, autorretratos realizados a partir de selfies e fotos analógicas, cujas dimensões remetem a outra imagem, outrora bem mais comum: o retrato 3 x 4 das carteiras de identidade, das escolares aos RGs que atestavam nossa existência.  As novas tecnologias de informação e comunicação atuam sobre os rastros deixados no ciberespaço: monitoram-se gostos, consumos, sensibilidades, comportamentos. A vida se transforma em dados coletados, classificados, vigiados e comercializados. Quem autoriza a minha existência? É a interrogação implícita. Como escreve a curadora: “Parece que só temos existência se expostos à visibilidade absoluta e imediata, o desejo de ver transforma-se na obsessão à exibição. Para atestar a existência que se dissolve no próprio espectro, resta colocar-se sob o olhar do outro – na incerteza de sua realidade é preciso encontrar a chave que ostente sua evidência. Os vínculos se tornam dependentes dos impulsos elétricos, das redes eletrônicas, do on/off das ligações tecnológicas. A exposição de si e a conexão tornam-se compulsivas, precisa-se delas para existir e se ligar aos fluxos do mundo, mesmo que seja na fantasmagoria das redes e dos . É como se o verso do poema Retrato de Cecília Meireles, que intitula a mostra, não cessasse de ecoar: ‘Em que espelho ficou perdida a minha face?’ É essa fantasmagoria, e certa alegria esfuziante como desespero implícito, que Cabeças  e as demais obras da exposição trazem à superfície destes espelhos baços, incertos e efêmeros. “

 

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