Fábio Baroli | Galeria Periscópio Arte Contemporânea

Já é consenso o quanto os moradores em cidades do interior são hospitaleiros. Quer seja numa prosa ou num cafezinho, a hospitalidade é uma característica marcante. A intimidade da casa, os encontros e as conversas que ocorrem naturalmente e o cotidiano se dá em sua apresentação mais crua e sem mediações são algumas das situações com cenas de interesse artístico. Vivi até os meus 22 anos em um bairro periférico que me permitiu levar para minhas obras uma memória afetiva de minha infância e adolescência em Uberaba.

Uberabense e filho da “terra do Zebu” (inclusive, nome de um dos meus quadros expostos), nos traços artísticos pode se observar muitos matutos por parentes e vizinhos, quanto uma reinvenção da paisagem do Triângulo Mineiro, ora sob chamas, ou numa revolução vinda do campo brasileiro e, até mesmo, imaginar manifestações com a turma da rua repercutindo as notícias da tv.

Curiosamente, Uberaba recebeu esse apelido decorrente dos criadores de gado que começaram a trabalhar a raça chamada Zebu na Década de 30 e ficaram famosos por serem pioneiros no Brasil. As situações são reencenadas com uma leve ironia e um forte questionamento político sobre essa paisagem interiorana que, conforme o curador Júlio Martins, ainda é desconhecida e “tão tipificada pelo imaginário da arte moderna”.

Mesmo sem muitas referências, foi lá que ocorreram os meus primeiros contatos com o desenho, a pintura, a escultura e a assemblage (termo francês introduzido pelo artista Jean Dubuffet, em 1953, usado para definir colagens com objetos e materiais tridimensionais). Possuía um pequeno ateliê no fundo da casa de meus pais, considerado meu ambiente de criação. Ao ingressar no curso de bacharelado em artes da Universidade de Brasília me mudei para a capital e passei a me dedicar de forma intensa à pintura a partir de 2007.

A arte sempre fez parte do meu cotidiano. Lembro-me de desenhar desde pequeno, dos quatro ou cinco anos de idade. Observava o meu irmão Paulo desenhar e me incentivava. Outra lembrança é de uma pasta de ilustrações e caricaturas do meu tio Jasmo, em que cada página, à cada estranha figura colorida à lápis de cor, havia uma história contada por ele. Era muito fantasioso. Mesmo sem artistas na família, ambos, tio e irmão, foram muito importantes para despertar o que se tornaria a arte em minha vida. Percebia uma vontade inexplicável de experienciar a pintura. Hoje, observo que essa vontade foi mais impulsionada por uma necessidade de fazer que por qualquer outra razão sobre o motivo. Daquele momento até 2003, senti a necessidade de sistematizar os estudos e aprofundar na pesquisa em arte, quando ingressei na universidade.

Algumas das minhas obras estão expostas na galeria Periscópio Arte Contemporânea, em Belo Horizonte como minha primeira exposição individual, i intitulada “À Porta de Casa”. A exposição apresenta obras inéditas e pode-se observar que as paisagens permaneceram, curiosamente, habitando as telas ao longo de mais de uma década de produção. Sob o olhar da ciência elaborada, a “Antropomatutologia”, expressão criada por mim para tornar a conhecer o matuto que abriga o conjunto das minhas produções.

As obras da exposição representam práticas comuns dos interiores brasileiros em que as pessoas colocam bancos nas calçadas, convidando quem passa pela rua a se aproximar. “À porta de casa” define um lugar de sociabilidade partilhada. No espaço público, mas sob a mesma hospitalidade oferecida pelo povo do interior. Cada trabalho convida a conhecer essa geografia humana do interior brasileiro, atentando às singularidades e perversidades insinuadas no percurso, aparentemente bucólico. À porta de casa, o que se localiza, não é limite entre os campos privado e público, mas uma zona espraiada de afetividade e contato humano.

 

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