Evandro Prado | Centro Cultural São Paulo

Composta por dois trabalhos que levantam questões sobre gênero, mídia e poder, o artista se debruça sobre os desfechos políticos que resultaram no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. O texto da exposição é assinado pelo curador Alexandre Bispo.

Com uma produção preocupada com as relações dos campos da história e do poder, Evandro Prado reproduziu todas as capas revistas de circulação nacional que foram estampadas com a figura de Dilma Rousseff, entre os anos 2010 e 2016. As 97 pinturas à óleo formam o grande políptico que é o destaque desta exposição.

Em “2010-1016 /O Processo” (2017), que ocupa mais de 10 metros de parede, capas de revistas como “Veja”, “Isto É”, “Exame”, “Época”, “Carta Capital” e “Caras” são recriadas quase sem edições, retirando apenas os textos secundários, mas preservando fielmente as logomarcas, as manchetes principais e as fotografias. Na transposição das imagens das capas para a tela Evandro executa uma pintura rápida e precipitada, como se a rapidez dos acontecimentos e os equívocos políticos devessem perpassar o movimento das pinceladas. A reunião de todas essas capas de revistas revelam como a imprensa nacional, que ajuda a formar a mentalidade e domina a opinião das classes médias do país, desempenhou papel importante como criadora e geradora de pressão política por parte da opinião pública sobre a então Presidente da República.

O humor discreto de entonação crítica de Evandro fica também evidente na instalação “Governo Federal 2” (2018). O trabalho faz um comentário sobre o escândalo das gravações entre o ex-presidente Michel Temer e o empresário Joesley Batista, um dos donos do Frigorífíco JBS. A fala de Temer “Tem que manter isso aí, viu” foi dita como endosso ao pagamento de propina ao ex-deputado Eduardo Cunha para manter seu silêncio diante da Polícia Federal.

A frase, que intitula a exposição, é reproduzida sobre a superfície de um outdoor de papelão, escancarada diante do olhar do público, devolvida como espetáculo da bizarrice política que vem assolando nosso país.

A exposição se completa com um livro de 128 páginas no qual um historiador, um jornalista, um antropólogo, uma filosofa, um crítico de arte, e uma deputada federal levantam questões confrontando o trabalho do artista com o sistema político, a sociedade, o direito, a injustiça, o machismo, o golpe e a opressão da mídia. Eles são Paulo Rezzutti, Eduardo Romero, Alexandre Bispo, Marcia Tiburi, Divino Sobral e Jandira Feghali, que colaboraram gratuitamente com o livro. A publicação está sendo financiada via crowdfunding pelo site: www.vakinha.com.br (até 20 de junho) e será lançada na exposição, no dia 24 de agosto.

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