Elisa Stecca | Museu de Arte Sacra de São Paulo

O silencio leva ao sagrado?

O Museu de Arte Sacra de São Paulo, instituição da Secretaria do Estado da Cultura, inaugura a mostra de objetos escultóricos Silencio, (primeira pessoa do singular do verbo silenciar) da artista plástica, designer e joalheira Elisa Stecca, com curadoria de Paula Alzugaray. Materiais, em tonalidades claras, selecionados para confecção das peças, como metais brancos, vidros transparentes e espelhos, convidam à uma observação atenta a qual busca induzir a um momento de contemplação e silêncio. Como um adicional à mostra, estão programadas ações de “Silêncio Compartilhado” em que a artista compartilha um tempo silencioso com o público, além de uma experiência sensorial do silencio através de um vídeo e de esculturas tácteis.

A essência primária da exposição busca resgatar o aspecto ‘xamânico’ da arte, que sugere um encontro com o sagrado. Silencio propõe uma reflexão individual, “uma ação e também uma não-ação, num mundo onde o ruído é a tônica”, declara a artista.

A proposta se apresenta como indagativa visto que seu título remete a ‘silêncio’. As obras inéditas criadas para a mostra, em formatos sinuosos em vidro espelhado, pedras misteriosas como a pirita e o alquímico mercúrio líquido, reforçam a escolha de materiais visando sempre expressão mínima e potência máxima. Como um eco do pensamento de Aldous Huxley, “o silêncio está tão repleto de sabedoria e de espírito em potência, como o mármore não talhado é rico em escultura. ”

O gesto construtivo é mínimo, potencializando os materiais e o espaço. É um gesto sem palavras, cujo tema é preponderante na seleção dos materiais que sugerem a composição. Habituada a trabalhar com materiais preciosos, Elisa Stecca escolhe o silêncio como elemento valioso, fundamental, como uma maneira de introspecção e possibilidade de acessar níveis não usuais da percepção e espiritualidade.

Os trabalhos da artista, especialmente pensados para o espaço são inspirados por artistas que se utilizaram da arte com uma forma de redenção, de salvamento como, Louise Bourgeois e Yayoi Kuzama; contemporaneamente às temáticas de “cura” do trabalho de Theaster Gates.

Para Elisa Stecca, contemplar o silêncio é vivenciá-lo, aproveitando esse momento para refletir sobre outros assuntos que as vezes, no calor da emoção de alguns acontecimentos, não conseguimos pensar racionalmente. É importante fazer com que as pessoas possam ter contato consigo mesmas através do silencio, possibilitando o encontro com um caminho que remeta a procura por suas vozes interiores baseados em espiritualidade.

As ações de Silêncio Compartilhado, parte integrante e essencial da exposição, remetem ao ato criativo de Marcel Duchamp em que a “arte é o trabalho de um artista” e não um espetáculo que a denominação – performance – sugere.

 

“Proponho um momento de introspecção, de reflexão, de meditação.

Um segundo no tempo/espaço, uma oportunidade de acesso ao profundo, ao sagrado. ”

Elisa Stecca – 2017

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