Douglas Gordon | Galeria Marília Razuk

Com um viés provocativo, o escocês Douglas Gordon é autor de trabalhos multidisciplinares, que não podem ser enquadrados em categorias estanques. O artista já produziu filmes sobre personalidades famosas, possui trabalhos que tomam fotografias de astros do rock como ponto de partida, além de vídeos que reconstroem obras clássicas do cinema. A partir de 7 de abril, parte dessa produção singular poderá ser conferida pelo público na mostra I will, if you will…, primeira individual do artista no Brasil, promovida pela galeria paulistana Marilia Razuk. No mesmo mês, o artista apresenta um trabalho no Instituto Moreira Salles, também na capital.

A exposição reúne 25 obras do artista, entre vídeos, fotografias, desenhos, esculturas e textos de parede. Com curadoria de Martina Aschbacher, a mostra engloba diferentes épocas da trajetória de Gordon, um dos maiores nomes das artes visuais e performáticas do mundo, cuja produção já passou pelas mais importantes instituições artísticas do globo. O artista é ainda vencedor do Turner Prize, consagrada premiação de arte contemporânea oferecida pela Tate Gallery, de Londres.

Optando por formatos simples, com os quais o público costuma se identificar, o artista discute temas profundos, que lhe são caros. As dualidades universais que atormentam a humanidade são recorrentes em suas obras. Vida e morte, certo e errado, profano e sagrado são alguns dos duplos presentes em seus trabalhos, apresentados tanto em exposições de arte quanto em salas de cinema.

No vídeo Twin Blades, por exemplo, é possível ver duas passagens idênticas, sobre as quais se apoiam dois jovens, vestidos de modo semelhante. Cada um deles possui uma faca em mãos, afiada de tempos em tempos. A imagem, simples quando vista de relance, se  revela pouco a pouco uma construção complexa.

Trata-se de duas sequências do mesmo personagem, filmado exatamente no mesmo local, mas em momentos diferentes. Para se dar conta de que não se trata de uma cena única, mas de imagens duplicadas e espelhadas sem sincronia, o espectador precisa se ater a pequenos detalhes que revelam a ilusão: a chuva, a sombra de uma mão. Nesse jogo de ótica, o artista trata ainda da oposição entre Leste e Oeste, uma vez que a obra é filmada na cidade de Tânger, no Marrocos, porta de entrada do movimento de emigração para a Europa.

A cidade também é o cenário de Self Portrait in Tangier, vídeo que dialoga com a primeira obra. Em um enquadramento fechado, o trabalho traz uma mão masculina que, ao longo de todo o filme, afia uma colher de prata. Alternando-se entre superfícies côncavas e convexas, os reflexos do objeto apresentam ao interlocutor os famosos terraços da cidade africana e ainda imagens do próprio artista, que costuma incluir a si mesmo em diversas de suas produções.

As mãos, por sinal, também aparecem em outros trabalhos presentes na mostra. É o caso de The Left Hand Can’t See That The Right Hand Is Blind, videointalação que traz duas mãos cobertas por luvas de couro que tentam se desvencilhar uma da outra. A exposição traz ainda um conjunto de cinco esculturas em mármore Carrara, pequenas réplicas e fragmentos de seus próprios braços, mãos e dedos.

“A mão é um elemento recorrente no trabalho de Gordon, que as utiliza como símbolo do comportamento humano, evocando identidade, sexualidade, fetichismo, dominação ou mesmo insinuando a  inabilidade do ser humano em se comunicar”, afirma a curadora.

 

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