Delson Uchôa | Zipper Galeria

Estabelecer um diálogo com o próprio trabalho por meio de reencontros com sua produção anterior é um dos processos característicos na obra de Delson Uchôa. “A pintura é uma conversa para o olho que sabe ouvir”, afirma o artista, que de tempos em tempos volta-se para um determinado trabalho iniciado anos antes, ativando-o novamente. Em “Autofagia, Corrupio no Olhar”, sua segunda exposição na Zipper, o conjunto de seis pinturas em grande formato foi desenvolvido com distintos intervalos de tempo ao longo de quatro décadas, dos anos 1980 até hoje.

A obra “Quaradouro” é uma das que melhor expressa a ideia de autofagia, como o artista passou a chamar tal processo. O título da tela remete ao local exposto ao sol para “quarar” (secar) a roupa; no centro da obra, está uma pintura realizada em 1989 sobre um cueiro, cercado por pregadores de roupa. Em outros três momentos (1998, 2003 e 2018) Delson fez apagamentos, acréscimos e alargamentos da pintura a partir da figuração central do trabalho. “Eu não abandono nada em minha produção. Esses trabalhos são a pura expressão de como me alimento de mim mesmo, em um processo autofágico”, comenta.

O termo tem origem na medicina, área de formação do artista que exerce grande influência na lógica de seu trabalho, e se refere a um mecanismo de regeneração natural em células do corpo. Adaptada para sua prática pictórica, a autofagia se materializa em pinturas de muitas camadas, indicando um vasto hibridismo cultural e memórias de distintos períodos.

Nas obras reunidas nesta seleção, é possível identificar alguns pontos de partida do artista: padrões, formas geométricas e tonalidades recorrentes na produção de Delson nos anos 1980. A variedade de materiais também está presente – lona, lá, algodão, camurça, madeira, plástico e metal mesclam-se à pintura acrílica como testemunhos de um arquivo objetual reunido pelo artista.

A atitude de desenvolver novos trabalhos a partir do resgate do passado representa, paradoxalmente, uma reiteração de seu próprio presente. “Não existe, para mim, um ponto final nas obras. Eu refaço, recomponho, amplio. É um processo muito singular, de reencontro. Enquanto os trabalhos estiverem ao meu alcance, não me privo de revisitá-los”, afirma.

 

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