Cristiano Mascaro | Cidade Matarazzo

A fusão entre natureza e concreto é processo constante nas paisagens urbanas. O verde outrora abundante dá lugar ao cinza, sinal da modernização. Mesmo diante de tamanha densidade, a força da natureza brota em frestas e rachaduras abertas na espessa massa cinzenta, trancando rastros, fantasmas e cicatrizes em suas escuras entranhas. Mais de vinte anos depois, o progresso interrompe este longo sono, transformando as velhas estruturas e trazendo vida nova. Em busca do espírito desse lugar histórico singular, um fotógrafo explora a energia invisível antes adormecida. Estes registros compõem a exposição Alma, nova individual de Cristiano Mascaro, no Cidade Matarazzo, a partir de 2 de abril. A abertura integra a programação oficial do Gallery Night, circuito de galerias realizada pela SP-Arte – Festival Internacional de Arte de São Paulo, que acontece entre os dias 3 e 7 de abril, no Pavilhão da Bienal.

Na exposição, que tem curadoria de Marc Pottier, 20 fotografias evocam as possíveis presenças que permeiam as paredes do antigo Hospital Matarazzo, que teve suas atividades encerradas em 1993. Desde 2013, o fotógrafo investiga a história dos vários espaços abandonados da instituição desativada, hoje tomada por obras e jardins desgrenhados. Suas imagens em preto e branco em grande formato revelam o que está escondido e proibido aos visitantes, criando uma linguagem de narrativa alusiva, tanto poética quanto visual, que convida o espectador a imaginar por onde o Homem deixou seu rastro. 

“Com habilidade, Mascaro produz imagens inesperadas, que remetem sutilmente sem ser jamais descritivas. É um fotógrafo do invisível que nunca fotografa o óbvio, o monumental. Em seus registros, o ser humano está geralmente ausente, porque o que lhe interessa são os lugares, antes ou depois do Homem. Ele prefere que tentemos o decifrar e sugere que o espectador se perca imaginando as vidas que por lá passaram e que irão passar”, declara Pottier.

Da sua atuação como repórter fotográfico na revista Veja, nos anos 1960, Mascaro ainda guarda certa pulsão do fotojornalismo pelo inesperado, mas seu olhar se aproxima do que se esboçava em sua primeira individual, certeiramente intitulada Paisagem Urbana, em 1974, na galeria paulistana Enfoco.

“O rigor do enquadramento frequentemente se traduz na utilização do que é conhecido entre os profissionais da imagem como plongée, do francês mergulho, técnica que altera o ponto de fuga da imagem dando ao espectador uma perspectiva do alto para baixo. Seu profundo conhecimento da luz conduz seu olhar a usufruir de uma intimidade incomum com a arquitetura”, explica Pottier. “A sombra da sombra é surpreendida em suas imagens podendo até evocar as pinturas de Rothko ou de Gerhard Richter. No entanto, sua linhagem também descende de outros grandes fotógrafos, entre eles, o húngaro André Kertesz. Lembra Henri Cartier-Bresson e sua teoria do l’instant décisif – o instante decisivo – que exprime a mais clara visão do mundo ao redor de um determinado sujeito. Sempre a léguas do óbvio, Mascaro também ama as situações reais. Mas sempre na esfera das ideias, nunca no óbvio, sempre na poesia, nunca na prosa”, completa o curador.

No dia 28 de abril, o Cidade Matarazzo participa do Paulista Cultural, evento que reúne as principais instituições culturais da região da Avenida Paulista, que juntas promovem uma série de atividades exclusivas e gratuitas.

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