Concretos/Neoconcretos Paulistas | Studio Nóbrega

A Arte Concreta e Neoconcreta surge no Brasil na virada dos anos 1940 para 1950, provocando uma ruptura com a tradição mo­dernista que dominava o cenário artístico des­de a Semana de 1922. Tal descontinuidade causou grande impacto entre os jovens artistas e intelectuais brasileiros, destronando os valores até então propagados pelo Modernismo – não só por apresentar conceitos muito bem fundamentados, como também por legitimar um ideário estético e filosófico capaz de refletir os novos tempos que se instalavam.

No lugar do figurativismo de temática nacional ou regionalista do Modernismo, a Arte Concreta e Neoconcreta apresenta uma tônica universal e racional, baseada na linguagem geométrica, que atrai toda uma nova geração de artistas da vanguarda paulista. Willys de Castro, Waldemar Cordeiro, Antonio Maluf, Geraldo de Barros, Hércules Barsotti, Hermelindo Fiaminghi, Maurício Nogueira Lima, Alexandre Wollner, Judith Lauand, Luiz Sacilotto e Lothar Charoux, e ainda Alfredo Volpi em sua fase concreta, são os artistas desse seleto grupo que integram a exposição Concretos/Neoconcretos Paulistas, que o Studio Nóbrega recebe entre 26 de outubro e 17 de novembro. No dia 11 de novembro, o espaço participa ainda do Art Weekend São Paulo 2017.

A mostra apresenta 25 obras de autoria de figuras estelares, criteriosamente selecionadas pelo artista plástico abstrato-geométrico Macaparana que, a convite da galeria, assina a curadoria da exposição. O artista teve o privilégio de conviver com várias dessas figuras que influenciaram os fundamentos de sua linguagem artística, hoje, de renome internacional.

“Meu objetivo foi destacar a abstração geométrica produzida pelo grupo de São Paulo na segunda metade do século 20, desde o Concretismo até o surgimento do grupo Neoconcreto, no Rio. Não vejo uma cisão entre ambos e, sim, uma flexibilização do processo criativo dos artistas”, explica o curador. Para complementar a compreensão do período, catálogos e textos originais da época contextualizam as obras, situadas em sua maioria entre os anos 1950 e 1960, época de maior efervescência dos dois grupos. “O fim da Segunda Grande Guerra (1939-1945) provocou uma onda de otimismo, alimentada pela pauta desenvolvimentista da política nacional, que se refletiu no campo artísti­co. A tela passa a ser construída exclusivamente por elementos plásticos – planos e cores – sem outra significação senão eles próprios. Outra consequência significativa da Arte Concreta é o final da influência da Escola de Paris sobre a arte brasileira”, complementa Macaparana.

Na coletiva, estão também presentes artistas seminais ao desenvolvimento da Arte Concreta e Neoconcreta no país: o suíço Max Bill (1908-1994) e o alemão Josef Albers (1888-1976), ambos associados à Bauhaus. Foram as teorias desses dois pensadores que despertaram o interesse pela abstração geométrica no Brasil em dois eventos transformadores: no MAM/SP, em 1949/1950, e na 1ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1951, em que Max Bill vence o prêmio aquisição com a célebre escultura Unidade Tripartida.

Dos artistas, duas raridades: o óleo sobre tela com economia de elementos visuais, Kondensation Von Komplementar Faben (1969) de Max Bill, que atesta sua fidelidade às teorias concretas; e a tela WLS XI (1966) de Josef Albers, que demonstra o purismo esquemático e cromático do artista em uma litografia tricolor sobre alumínio.

Obras e artistas

“No início da década de 1950, Volpi rompe com a figuração e envereda por um breve período construtivista, hoje, considerado um dos pontos altos de sua carreira”, elucida o curador. Na têmpera sobre tela Sem título de Alfredo Volpi (1896-1988), da década de 1950, as metades do quadro bicromático, dividido em diagonal, ganham um cubo da cor oposta, como um símbolo do Yin Yang vetorial, e o preenchimento da tela evidencia a translucidez da técnica.

A pintura Sem título produzida pelo concreto Geraldo de Barros (1923-1998), em 1953, imprime uma constelação colorida sobre um fundo preto, no qual círculos e linhas retas confundem-se na representação pontilhada. A obra é uma das que chegaram ao Studio Nóbrega pela coleção do poeta concreto Décio Pignatari, após sua morte em 2012.

Outro trabalho que incorpora as bases concretas à impressão de espacialidade é a pintura Sem título (1956) de Hermelindo Fiaminghi (1920-2004). Nela, triângulos são seccionados por círculos pretos, fosco e brilhante, trazendo à tela o efeito trompe l’oeil que acentua a sensação de dimensionalidade da obra.  Já Estágios Simultâneos (1975), do neoconcreto Hércules Barsotti (1914-2010), emprega a divisão esquemática de cores em um losango para provocar uma tridimensionalidade alcançada por sua exímia habilidade em criar sequências cromáticas.

Conforme escreveu o poeta neoconcreto Ferreira Gullar (1930-2016), um de seus fundadores e, talvez, o intelectual brasileiro que mais se dedicou a analisar esta corrente artística revolucionária, “A arte Concreta e Neoconcreta per­tencem hoje à História da Arte Brasileira e sobre elas já muito se refletiu e escreveu, em função mesmo do papel que desem­penharam no curso dessa História”. É esse o mote que leva o Studio Nóbrega a homenagear esse grupo de artistas excepcionais na exposição Concretos/Neoconcretos Paulistas.

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